
Berneron: parte I
Berneron: parte I
minha percepção precisou amadurecer amplamente
minha percepção precisou amadurecer amplamente
Paulo Rabelo
Paulo Rabelo
16
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min
min
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É curioso e bem delicado escrever sobre um relógio ou sobre uma marca que ainda não tivemos em mãos. Acho que quase sempre o relógio no metal nos passa pelo menos alguma percepção extra que um review não capturou, e menos ainda aquele press release no qual até as palavras-chave são escolhidas pelas manufaturas. Se eu pudesse ver todos os relógios que me causam ao menos alguma curiosidade, eu veria.
Dentre inúmeras conversas que tive com amigos próximos, eu acho sinceramente que nos tempos de hoje temos um momento fantástico dentro da relojoaria — sem uma projeção exacerbada, o ímpeto que eu quero ressaltar é a quantidade de peças e marcas formidáveis que temos atualmente. Tem muita coisa especial. Mais do que como um colecionador (eu não gosto dessa palavra) creio que nesse momento eu seja mais um admirador de relojoaria, do que qualquer outra coisa. Eu gosto notoriamente de pesquisar sobre as peças que me chamam a atenção, em especial depois de mais de uma década consumindo uma quantidade pouco saudável sobre o tema.
Toda primeira impressão que eu tenho de um relógio é visual, ponto. Seja em mãos ou pelo celular. É relativamente simples, natural olharmos algo e automaticamente pensar se gostamos ou não, se achamos bonito ou não, (ou mais recentemente no meu caso), se sou indiferente àquilo. Quando eu vi uma foto do primeiro Berneron em 2023 a percepção que eu tive não é a mesma que tenho agora. Eu precisei amadurecer sobre.

@hairspringwatches
O começo da marca e seu fundador
Sylvain Berneron lançou seu primeiro relógio em 2023, e dentre um dos pontos mais relevantes foi que antes de começar efetivamente sua marca, o fundador era o Chief Product Officer da Breitling. Só com esse fato já temos várias nuances inferidas, não só por ser explícito o fato que o Berneron era intimamente familiarizado com a relojoaria, mas uma peculiaridade importantíssima é que isso aconteceu dentro de uma marca tradicional, não só em termos de produto mas de estrutura corporativa também.
Uma tese que eu formei ao longo dos últimos anos quase que involuntariamente foi a seguinte: temos uma distinção na forma na qual as marcas abordam seus relógios.
Independentes: como eu posso tornar isso possível?
Tradicionais & Veteranas da indústria: como eu posso tornar isso mais barato?
Obviamente, sem ser uma caracterização absoluta pois nem todo independente é santo e nem toda marca tradicional é malévola. Mas o sentimento é basicamente esse.
Nisso, enquanto escutava uma entrevista do Sylvain, ele explicou a minúcia de como era apresentar um projeto novo dentro da Breitling. No detalhamento do orçamento proposto estava o custo do dial, nisso um dos executivos vira para ele e fala: “precisamos que isso custe 3 francos a menos”.
“Eu posso tirar o dial do relógio. Se for para economizar 3 francos em um fucking dial, aí você pode ir explicar para o cliente que foi por conta disso que não colocamos um.” Sylvain Berneron (para o Hodinkee Radio).
Bom, imagino que esse momento em particular tenha sido no mínimo marcante na decisão de começar a própria marca. E, um insight valioso em como as decisões muitas vezes são tomadas nessas grandes casas. A marca Berneron foi fundada com aproximadamente CHF 1m, o que se resume a 17 anos de poupança pessoal do Sylvain e sem nenhum capital externo. All-in.
Berneron: Mirage - “shaped from within”
Foi justamente aqui que tive uma primeira impressão que faltou sensibilidade da minha parte. Assim que vi o “Mirage” pela primeira vez, eu pensei: “surfou muito a onda do Cartier Crash.” — e mesmo assim eu tinha em mente que a única coisa que essas peças têm em comum é o fato de serem assimétricas. Só isso.

@dans.watchvault
Dito isso, um outro ponto que ficou claro sobre uma preferência minha é uma peculiaridade de eu não gostar quando os índices alternam entre numerais e algum outro estilo. Puramente uma questão de gosto pessoal, esses dois fatores fizeram com que não fosse um “amor à primeira vista”. O que não deixou de acontecer foi querer entender o que mais tinha por trás do relógio (literalmente) distorcido.
O Mirage foi lançado em duas versões, ouro branco com dial prata e detalhes azuis (Prussian Blue), e ouro amarelo com dial dourado e detalhes vermelhos (Sienna). E neste lançamento não só vieram essas duas peças, mas a fundação na qual várias sensibilidades e filosofias da marca se baseiam. Não só pelo lado técnico e artístico, mas também como empresa. Com o primeiro relógio oficialmente lançado, consequentemente veio uma companhia nova, dentro de um mercado relojoeiro altamente peculiar depois da última década.


@hairspringwatches
Mesmo com a primeira impressão sendo uma comparação direta ao Crash, com alguns segundos as diferenças entre ambos começam a tomar vida, mesmo que de forma subconsciente. Um fato importante é que o Crash foi sim, em parte, uma inspiração para o Mirage. Na verdade foram duas peças, as outras foram os Patek Philippe Calatrava nas suas versões vintage. O que eu mais notava era a forma fluida da caixa, com um nível de tensão orgânica que eu não notava no Cartier. Notei que eu ficava um pouco inquieto, em especial com o cantinho superior direito que tem uma elevação maior.
Depois de alguns olhares, tudo é peculiarmente torto. A caixa, as garras (lugs), os índices e até os ponteiros e a coroa. Nem o logo saiu ileso, pois tem uma fonte como se tivesse sido escrita à mão. É uma sensibilidade estética singular, pois só nesse campo o Mirage já se descola do Crash — eu ainda não achava o relógio necessariamente atraente, mas foi impossível não respeitar uma estética tão intencional e deliberada assim.
“Eu quero falar com colecionadores educados, que têm um entendimento profundo de arte e técnica, e não necessariamente com alguém que queria se mostrar” - Berneron
Essa frase acima foi algo que ele disse despretensiosamente em um dos vários podcasts que escutei, e sinceramente falando só pelo lado artístico do relógio até então, é bem isso mesmo. Denominada pela própria marca como “arte para ser usada”, os fatos falam por si só.
Enquanto temos a Patek Philippe celebrando o Cubitus com um movimento genérico da marca em forma redonda dentro de uma caixa retangular, aqui temos um movimento assimétrico e que preenche cada milímetro cúbico do seu espaço com o design que visa, além de tudo, eficiência mecânica.
Contextualizando
Existem algumas situações que requerem de verdade um véu de sensibilidade para serem entendidas. Não aceitas, mas entendidas. E uma vez entendidas, certamente apreciadas.
Quando vemos um relógio em que cada componente do movimento que poderia ter sido feito em ouro, foi de fato feito com esse material, é algo que foi feito para encantar e ponto. Não tem como racionalizar isso de forma “inteligente” — tal como em algumas situações nas quais o caviar chega e é servido com uma delicada colherzinha de madrepérola. É custoso. É mais trabalhoso. E é principalmente mais encantador.
“Essa parte foi feita em ouro por quê?” “Porque sim.” Seria uma resposta plenamente aceitável caso eu tivesse essa dúvida. Inclusive gostaria de recebê-la.
É para ser envolto em sensação, em apreço pela finesse inerente do material. Tentar colocar isso numa planilha e ver o impacto que teria no EBITDA é essencialmente colocar na ponta do lápis algo que não precisa ser posto. Aliás, que não deve ser posto. Expressões artísticas desse tipo brigam por natureza com as fórmulas de uma McKinsey.
“daqui a cem anos quando abrirem esse relógio e verem que não pegamos nenhum atalho, vai ser algo memorável de se ver” - Berneron
Depois que esses aspectos vão ficando claros, a impressão inicial de algo que surfou a onda do Crash fica extremamente distante. Aproveitando o ensejo, hoje em dia meu “molde” para avaliar um relógio, mesmo que só para mim, eu olho separadamente para três elementos, o quão bem executados eles são, e o resultado dessas partes juntas. Olho a caixa, o dial e o movimento. Não é um método incomum de forma alguma, mas o peso que cada um desses itens, em especial na caixa, é certamente mais elevado que a medida convencional.
Então, como eu só tinha o aspecto estético para formar uma primeira impressão, eu reparei no quão orgânico aquele formato como um todo parecia. Mas não só isso, que por mais fluido que aquele material meio derretido parecesse, algo me dizia que ainda tinha mais alguma coisa ali. E tinha.
Geometria
Com um contexto sobre o relógio muito mais embasado, sabendo que tudo foi praticamente foi feito do zero, caixa e movimento passam a ter uma relação genuinamente inseparável. Falarei sobre o movimento na próxima seção.
Quando pensamos sobre assimetria, quase sempre isso se refere a alguns elementos dispersos nos dials, caixa e movimento raríssimamente entram nessa contemplação. Um exemplo clássico de assimetria é o Lange 1, um relógio que eu acho belíssimo e que carrega consigo uma outra camada não tão óbvia na sua execução:

É intuitivo ver esses elementos e automaticamente assimilar uma construção pouco convencional, mas não só isso, que mesmo fugindo dos padrões típicos ainda existe um elemento de equilíbrio forte no design, que tudo está perfeitamente no lugar e que agrada nossos olhos sem necessariamente sabermos por que. O ponto principal é que por mais que exista uma assimetria, ela segue o Fibonacci sequence.
Fundamentalmente temos um princípio matemático que delineia uma relação não linear entre as formas, mas que por ser numericamente perfeito, cria-se um efeito de harmonia plena na minha visão e de Adolf Zeising, psicólogo alemão que estudava matemática e filosofia.
O dial do Lange 1 segue precisamente esse padrão, por isso conseguimos ver tanta beleza em algo não necessariamente familiar. Quando isso é posto em xeque, fica mais fácil notar o racional quase que como uma epifania, e daí vemos ordem mesmo que de forma não simétrica. Ver o golden ratio nesse tipo de situação fica de certa forma intuitivo. O que é menos óbvio é quando esse padrão existe de forma distorcida. Como uma primeira camada dentro de uma possibilidade maior.
Comentei em alguns parágrafos acima que eu ficava especialmente inquieto com o canto superior direito do Mirage, e que todos os demais elementos dos relógios têm uma característica assimétrica. O que eu não sabia é que por mais orgânicas que essas formas e esses designs pareçam, isso não aconteceu de forma randômica.

@hairspringwatches
Cada curva do relógio segue também o golden ratio. Cada distorção carrega em si essa mesma sequência matemática que, mesmo sem sabermos que exista, nos causa um senso de ordem e beleza de forma subconsciente. Minha percepção sobre o relógio aqui passou a ser de de algo intrinsecamente memorável. Não consigo conceber alguém desenhando um ponteiro e aplicando o golden ratio em cima disso.

Mostrador
Indices
Subdial
Ponteiros
Coroa
Cristal
Lugs
Fecho
Logo
Todos os pontos acima não seguem uma forma convencional, todos englobam o Fibonacci sequence de forma orgânica e não óbvia.



O que temos como exemplo no Lange 1 é catapultado para outra dimensão de sensibilidade estética. Até então não conheço outro exemplo na relojoaria que criou algo nesse molde com essa intencionalidade. Com o Mirage a marca ganhou o “Audacity Prize” do GPHG com o seu primeiro e único relógio até então.
O movimento
Concebido por Sylvain Berneron, o princípio do relógio em ter uma natureza assimétrica originou-se aqui. Mais especificamente, Berneron percebeu que um movimento mecânico poderia ser mais eficiente se não se contesse ao padrão de sempre, o que ele tinha em mente era deixar o trem de engrenagens e os demais componentes encontrarem suas posições ideais primeiro, e a caixa por consequência acomodaria esse resultado.
No molde tradicional, essas engrenagens seguem uma função de espiral logarítmica, aqui elas seguem a sequência de Fibonacci. Novamente, por mais orgânicas que as formas se pareçam, existe um princípio técnico matematicamente perfeito por trás. Em um adendo pessoal meu, fico em pleno choque toda vez que me lembro disso.

@hairspringwatches
Pelo desafio imenso de criar algo que ainda não existia, o calibre é produzido pela Le Cercle des Horlogers, uma das casas de maior renome e expertise em movimentos da Suíça. Não obstante a arquitetura singular, era essencial que o calibre fosse fino para manter a ideia de um relógio elegante viva, e com isso foi feito também o calibre em ouro mais fino produzido atualmente. Ainda atrelado à ideia de refinamento constante, o movimento conta com um balanço de espiral livre e um escapamento suíço de alavanca tradicional. Novamente, são dois outros pontos que demandam um esforço de execução maior também por atingirem uma estética mais limpa e bonita.
O processo de desenvolvimento desse único movimento tomou cerca de 75% do capital inicial da companhia e cerca de 18 meses de pesquisa e desenvolvimento. Bastante relevante, esse comprometimento financeiro foi atípico, pois o calibre em questão era tão peculiar que simplesmente não poderia ser aproveitado por outra manufatura caso não desse certo, era uma ideia que precisava ser concebida e executada de início ao fim por seu arquiteto.

Todos os componentes que tinham estrutura física para serem feitos em ouro, foram. Naturalmente, o custo de produção do movimento passa a ser substancialmente acima da média, e o metal precioso conta também com vários tipos diferentes de acabamento. Os chanfros polidos à mão têm uma outra questão técnica, pelo ouro ser um metal mais macio que aço, existe o risco do componente amassar durante o polimento. Em conjunto com a finura do calibre e arquitetura como um todo, com mais essa complexidade no mix, uma das frases do Sylvain sai da teoria para a prática:
“O mínimo que poderíamos fazer é garantir que o dinheiro será bem gasto, e que quando o cliente pegar o cartão de crédito ele consiga sentir o esforço que colocamos no relógio.” (Em entrevista para o Hodinkee Radio).
Em adição, o movimento conta também com guilloché, jateado fosco, cerclagem, “traits tirés”, “nuagage” e gravações a laser. Algo que a marca e o público em geral não têm problema em diferenciar é a questão do que foi feito efetivamente à mão e o que foi feito por máquinas. Juntamente aos chanfros, os ponteiros também são individualmente polidos um por um, por serem ainda mais delicados que o normal, caso fossem polidos por máquinas eles quebrariam, logo precisam ser polidos por um especialista.

@hairspringwatches
Em síntese, o calibre 233 foi por todos os ângulos um feito único. Não só pelo design mas pelo rigor técnico como um todo.
Mirage 34 e mais sobre a marca:
O segundo lançamento da marca foi uma versão mais conservadora do Mirage 38, agora em 34mm — minha preferida entre as duas. Não só pelo tamanho, mas pelo dial feito em pedra. No site, oficialmente eles fazem menção a dois modelos respectivamente nomeados pelas suas pedras: tiger eye e lapis lazuli. O que ficou de fora foi uma terceira versão, feita em 24 exemplares somente com um dial em crisoprásio, num tom vividamente verde.

@theydid
A ideia original era que essa pedra fosse usada regularmente, mas que não foi adiante pela delicadeza e fragilidade na hora de ser trabalhada, as peças foram oferecidas privativamente para colecionadores que já tinham um Berneron. Todas foram alocadas. Temos uma versão dessa variante indo a leilão em setembro, imagino que será vendida por mais de USD 300.000. Volto para falar sobre.
Paralelamente, tive o privilégio de conversar com um colecionador e amigo próximo que fotografou em primeira mão o Mirage 34 tiger eye. As fotos em sequência são inéditas e vindas diretamente de Thiago Takahashi (@montresetal), que me inspira fortemente também no quesito fotografia. O Mirage precisa de ampla sensibilidade em especial para ser fotografado. O relógio em questão vem de um colecionador americano, Scott Kaplan (@thedrummerdad), uma figura com profundo entendimento sobre relojoaria e que comprou uma peça diretamente com a Berneron.


Unanimemente entre os dois, o parecer sobre o relógio é de algo que foge de tudo que estamos acostumados, e que a atenção aos detalhes é notável desde o primeiro segundo. Em particular, o subdial dos segundos é esculpido à mão e tem uma concavidade diferente do restante da pedra, por ser um trabalho cem por cento manual, a taxa de sucesso de cada mostrador é fracionária.

Dentre inúmeros detalhes minuciosos, mais um feito que eu não tinha visto até então. Seguindo a mesma linha de acabamento do relógio, com as faces polidas e as laterais escovadas, o fecho (também distorcido, naturalmente) também segue com esse padrão. São spring-bars de ouro, fecho com dois acabamentos que remetem ao restante do relógio e ponteiros polidos à mão. Sylvain Berneron indiscutivelmente tem um cuidado ímpar com o que cria.



O que eu não abordei até agora, dentre outras coisas, foi justamente a questão dos preços, alocações e mercado secundário. Os preços dos Mirage são tabelados com reajustes anuais, e atualmente as versões 38 e 34 têm o valor de CHF 72’500 e CHF 58’500, respectivamente.
“nos primeiros anos, deixamos claro que diminuiríamos nossa margem. O colecionador que puxa o gatilho cedo assim merece o prêmio pelo risco que ele tomou.” - Berneron
Sylvain é um criador altamente versado e familiarizado com a relojoaria em diversos níveis. Existe um processo de compra e um monitoramento próximo da parte dele perante as peças que já estão no mercado. Com uma coleção nova já em vigor após os Mirage, com o mercado reagindo intensamente à marca e os processos de alocação e produção dignos de um aprofundamento dedicado, segue uma marca que merece ser elaborada por etapas.
Parte II em breve.



Próximas Leituras: coleção de duas peças por Jack Forster
Um dos editores mais queridos da relojoaria, Jack Forster é um dos nomes mais respeitados da indústria. Não só pelo conhecimento técnico invejável, mas pelo tempo que atua nesse segmento. São décadas de escrita técnica e num tom refinado, com uma voz e identidade próprias.
Enquanto era Editor-In-Chief da Hodinkee, Forster escreveu um dos artigos que eu mais gostei de ler até hoje: uma coleção de dois relógios que ele considera ideal. Quando li esse artigo pela primeira vez, minha percepção sobre relojoaria era drasticamente diferente do que é agora, quase dez anos depois da primeira leitura eu ainda adoro ver como ele aborda as duas peças, em como elas fazem sentido juntas e, em especial, o framework que Jack usa para pensar nesse tipo de assunto.
Vale cada segundo de leitura.
É curioso e bem delicado escrever sobre um relógio ou sobre uma marca que ainda não tivemos em mãos. Acho que quase sempre o relógio no metal nos passa pelo menos alguma percepção extra que um review não capturou, e menos ainda aquele press release no qual até as palavras-chave são escolhidas pelas manufaturas. Se eu pudesse ver todos os relógios que me causam ao menos alguma curiosidade, eu veria.
Dentre inúmeras conversas que tive com amigos próximos, eu acho sinceramente que nos tempos de hoje temos um momento fantástico dentro da relojoaria — sem uma projeção exacerbada, o ímpeto que eu quero ressaltar é a quantidade de peças e marcas formidáveis que temos atualmente. Tem muita coisa especial. Mais do que como um colecionador (eu não gosto dessa palavra) creio que nesse momento eu seja mais um admirador de relojoaria, do que qualquer outra coisa. Eu gosto notoriamente de pesquisar sobre as peças que me chamam a atenção, em especial depois de mais de uma década consumindo uma quantidade pouco saudável sobre o tema.
Toda primeira impressão que eu tenho de um relógio é visual, ponto. Seja em mãos ou pelo celular. É relativamente simples, natural olharmos algo e automaticamente pensar se gostamos ou não, se achamos bonito ou não, (ou mais recentemente no meu caso), se sou indiferente àquilo. Quando eu vi uma foto do primeiro Berneron em 2023 a percepção que eu tive não é a mesma que tenho agora. Eu precisei amadurecer sobre.

@hairspringwatches
O começo da marca e seu fundador
Sylvain Berneron lançou seu primeiro relógio em 2023, e dentre um dos pontos mais relevantes foi que antes de começar efetivamente sua marca, o fundador era o Chief Product Officer da Breitling. Só com esse fato já temos várias nuances inferidas, não só por ser explícito o fato que o Berneron era intimamente familiarizado com a relojoaria, mas uma peculiaridade importantíssima é que isso aconteceu dentro de uma marca tradicional, não só em termos de produto mas de estrutura corporativa também.
Uma tese que eu formei ao longo dos últimos anos quase que involuntariamente foi a seguinte: temos uma distinção na forma na qual as marcas abordam seus relógios.
Independentes: como eu posso tornar isso possível?
Tradicionais & Veteranas da indústria: como eu posso tornar isso mais barato?
Obviamente, sem ser uma caracterização absoluta pois nem todo independente é santo e nem toda marca tradicional é malévola. Mas o sentimento é basicamente esse.
Nisso, enquanto escutava uma entrevista do Sylvain, ele explicou a minúcia de como era apresentar um projeto novo dentro da Breitling. No detalhamento do orçamento proposto estava o custo do dial, nisso um dos executivos vira para ele e fala: “precisamos que isso custe 3 francos a menos”.
“Eu posso tirar o dial do relógio. Se for para economizar 3 francos em um fucking dial, aí você pode ir explicar para o cliente que foi por conta disso que não colocamos um.” Sylvain Berneron (para o Hodinkee Radio).
Bom, imagino que esse momento em particular tenha sido no mínimo marcante na decisão de começar a própria marca. E, um insight valioso em como as decisões muitas vezes são tomadas nessas grandes casas. A marca Berneron foi fundada com aproximadamente CHF 1m, o que se resume a 17 anos de poupança pessoal do Sylvain e sem nenhum capital externo. All-in.
Berneron: Mirage - “shaped from within”
Foi justamente aqui que tive uma primeira impressão que faltou sensibilidade da minha parte. Assim que vi o “Mirage” pela primeira vez, eu pensei: “surfou muito a onda do Cartier Crash.” — e mesmo assim eu tinha em mente que a única coisa que essas peças têm em comum é o fato de serem assimétricas. Só isso.

@dans.watchvault
Dito isso, um outro ponto que ficou claro sobre uma preferência minha é uma peculiaridade de eu não gostar quando os índices alternam entre numerais e algum outro estilo. Puramente uma questão de gosto pessoal, esses dois fatores fizeram com que não fosse um “amor à primeira vista”. O que não deixou de acontecer foi querer entender o que mais tinha por trás do relógio (literalmente) distorcido.
O Mirage foi lançado em duas versões, ouro branco com dial prata e detalhes azuis (Prussian Blue), e ouro amarelo com dial dourado e detalhes vermelhos (Sienna). E neste lançamento não só vieram essas duas peças, mas a fundação na qual várias sensibilidades e filosofias da marca se baseiam. Não só pelo lado técnico e artístico, mas também como empresa. Com o primeiro relógio oficialmente lançado, consequentemente veio uma companhia nova, dentro de um mercado relojoeiro altamente peculiar depois da última década.


@hairspringwatches
Mesmo com a primeira impressão sendo uma comparação direta ao Crash, com alguns segundos as diferenças entre ambos começam a tomar vida, mesmo que de forma subconsciente. Um fato importante é que o Crash foi sim, em parte, uma inspiração para o Mirage. Na verdade foram duas peças, as outras foram os Patek Philippe Calatrava nas suas versões vintage. O que eu mais notava era a forma fluida da caixa, com um nível de tensão orgânica que eu não notava no Cartier. Notei que eu ficava um pouco inquieto, em especial com o cantinho superior direito que tem uma elevação maior.
Depois de alguns olhares, tudo é peculiarmente torto. A caixa, as garras (lugs), os índices e até os ponteiros e a coroa. Nem o logo saiu ileso, pois tem uma fonte como se tivesse sido escrita à mão. É uma sensibilidade estética singular, pois só nesse campo o Mirage já se descola do Crash — eu ainda não achava o relógio necessariamente atraente, mas foi impossível não respeitar uma estética tão intencional e deliberada assim.
“Eu quero falar com colecionadores educados, que têm um entendimento profundo de arte e técnica, e não necessariamente com alguém que queria se mostrar” - Berneron
Essa frase acima foi algo que ele disse despretensiosamente em um dos vários podcasts que escutei, e sinceramente falando só pelo lado artístico do relógio até então, é bem isso mesmo. Denominada pela própria marca como “arte para ser usada”, os fatos falam por si só.
Enquanto temos a Patek Philippe celebrando o Cubitus com um movimento genérico da marca em forma redonda dentro de uma caixa retangular, aqui temos um movimento assimétrico e que preenche cada milímetro cúbico do seu espaço com o design que visa, além de tudo, eficiência mecânica.
Contextualizando
Existem algumas situações que requerem de verdade um véu de sensibilidade para serem entendidas. Não aceitas, mas entendidas. E uma vez entendidas, certamente apreciadas.
Quando vemos um relógio em que cada componente do movimento que poderia ter sido feito em ouro, foi de fato feito com esse material, é algo que foi feito para encantar e ponto. Não tem como racionalizar isso de forma “inteligente” — tal como em algumas situações nas quais o caviar chega e é servido com uma delicada colherzinha de madrepérola. É custoso. É mais trabalhoso. E é principalmente mais encantador.
“Essa parte foi feita em ouro por quê?” “Porque sim.” Seria uma resposta plenamente aceitável caso eu tivesse essa dúvida. Inclusive gostaria de recebê-la.
É para ser envolto em sensação, em apreço pela finesse inerente do material. Tentar colocar isso numa planilha e ver o impacto que teria no EBITDA é essencialmente colocar na ponta do lápis algo que não precisa ser posto. Aliás, que não deve ser posto. Expressões artísticas desse tipo brigam por natureza com as fórmulas de uma McKinsey.
“daqui a cem anos quando abrirem esse relógio e verem que não pegamos nenhum atalho, vai ser algo memorável de se ver” - Berneron
Depois que esses aspectos vão ficando claros, a impressão inicial de algo que surfou a onda do Crash fica extremamente distante. Aproveitando o ensejo, hoje em dia meu “molde” para avaliar um relógio, mesmo que só para mim, eu olho separadamente para três elementos, o quão bem executados eles são, e o resultado dessas partes juntas. Olho a caixa, o dial e o movimento. Não é um método incomum de forma alguma, mas o peso que cada um desses itens, em especial na caixa, é certamente mais elevado que a medida convencional.
Então, como eu só tinha o aspecto estético para formar uma primeira impressão, eu reparei no quão orgânico aquele formato como um todo parecia. Mas não só isso, que por mais fluido que aquele material meio derretido parecesse, algo me dizia que ainda tinha mais alguma coisa ali. E tinha.
Geometria
Com um contexto sobre o relógio muito mais embasado, sabendo que tudo foi praticamente foi feito do zero, caixa e movimento passam a ter uma relação genuinamente inseparável. Falarei sobre o movimento na próxima seção.
Quando pensamos sobre assimetria, quase sempre isso se refere a alguns elementos dispersos nos dials, caixa e movimento raríssimamente entram nessa contemplação. Um exemplo clássico de assimetria é o Lange 1, um relógio que eu acho belíssimo e que carrega consigo uma outra camada não tão óbvia na sua execução:

É intuitivo ver esses elementos e automaticamente assimilar uma construção pouco convencional, mas não só isso, que mesmo fugindo dos padrões típicos ainda existe um elemento de equilíbrio forte no design, que tudo está perfeitamente no lugar e que agrada nossos olhos sem necessariamente sabermos por que. O ponto principal é que por mais que exista uma assimetria, ela segue o Fibonacci sequence.
Fundamentalmente temos um princípio matemático que delineia uma relação não linear entre as formas, mas que por ser numericamente perfeito, cria-se um efeito de harmonia plena na minha visão e de Adolf Zeising, psicólogo alemão que estudava matemática e filosofia.
O dial do Lange 1 segue precisamente esse padrão, por isso conseguimos ver tanta beleza em algo não necessariamente familiar. Quando isso é posto em xeque, fica mais fácil notar o racional quase que como uma epifania, e daí vemos ordem mesmo que de forma não simétrica. Ver o golden ratio nesse tipo de situação fica de certa forma intuitivo. O que é menos óbvio é quando esse padrão existe de forma distorcida. Como uma primeira camada dentro de uma possibilidade maior.
Comentei em alguns parágrafos acima que eu ficava especialmente inquieto com o canto superior direito do Mirage, e que todos os demais elementos dos relógios têm uma característica assimétrica. O que eu não sabia é que por mais orgânicas que essas formas e esses designs pareçam, isso não aconteceu de forma randômica.

@hairspringwatches
Cada curva do relógio segue também o golden ratio. Cada distorção carrega em si essa mesma sequência matemática que, mesmo sem sabermos que exista, nos causa um senso de ordem e beleza de forma subconsciente. Minha percepção sobre o relógio aqui passou a ser de de algo intrinsecamente memorável. Não consigo conceber alguém desenhando um ponteiro e aplicando o golden ratio em cima disso.

Mostrador
Indices
Subdial
Ponteiros
Coroa
Cristal
Lugs
Fecho
Logo
Todos os pontos acima não seguem uma forma convencional, todos englobam o Fibonacci sequence de forma orgânica e não óbvia.



O que temos como exemplo no Lange 1 é catapultado para outra dimensão de sensibilidade estética. Até então não conheço outro exemplo na relojoaria que criou algo nesse molde com essa intencionalidade. Com o Mirage a marca ganhou o “Audacity Prize” do GPHG com o seu primeiro e único relógio até então.
O movimento
Concebido por Sylvain Berneron, o princípio do relógio em ter uma natureza assimétrica originou-se aqui. Mais especificamente, Berneron percebeu que um movimento mecânico poderia ser mais eficiente se não se contesse ao padrão de sempre, o que ele tinha em mente era deixar o trem de engrenagens e os demais componentes encontrarem suas posições ideais primeiro, e a caixa por consequência acomodaria esse resultado.
No molde tradicional, essas engrenagens seguem uma função de espiral logarítmica, aqui elas seguem a sequência de Fibonacci. Novamente, por mais orgânicas que as formas se pareçam, existe um princípio técnico matematicamente perfeito por trás. Em um adendo pessoal meu, fico em pleno choque toda vez que me lembro disso.

@hairspringwatches
Pelo desafio imenso de criar algo que ainda não existia, o calibre é produzido pela Le Cercle des Horlogers, uma das casas de maior renome e expertise em movimentos da Suíça. Não obstante a arquitetura singular, era essencial que o calibre fosse fino para manter a ideia de um relógio elegante viva, e com isso foi feito também o calibre em ouro mais fino produzido atualmente. Ainda atrelado à ideia de refinamento constante, o movimento conta com um balanço de espiral livre e um escapamento suíço de alavanca tradicional. Novamente, são dois outros pontos que demandam um esforço de execução maior também por atingirem uma estética mais limpa e bonita.
O processo de desenvolvimento desse único movimento tomou cerca de 75% do capital inicial da companhia e cerca de 18 meses de pesquisa e desenvolvimento. Bastante relevante, esse comprometimento financeiro foi atípico, pois o calibre em questão era tão peculiar que simplesmente não poderia ser aproveitado por outra manufatura caso não desse certo, era uma ideia que precisava ser concebida e executada de início ao fim por seu arquiteto.

Todos os componentes que tinham estrutura física para serem feitos em ouro, foram. Naturalmente, o custo de produção do movimento passa a ser substancialmente acima da média, e o metal precioso conta também com vários tipos diferentes de acabamento. Os chanfros polidos à mão têm uma outra questão técnica, pelo ouro ser um metal mais macio que aço, existe o risco do componente amassar durante o polimento. Em conjunto com a finura do calibre e arquitetura como um todo, com mais essa complexidade no mix, uma das frases do Sylvain sai da teoria para a prática:
“O mínimo que poderíamos fazer é garantir que o dinheiro será bem gasto, e que quando o cliente pegar o cartão de crédito ele consiga sentir o esforço que colocamos no relógio.” (Em entrevista para o Hodinkee Radio).
Em adição, o movimento conta também com guilloché, jateado fosco, cerclagem, “traits tirés”, “nuagage” e gravações a laser. Algo que a marca e o público em geral não têm problema em diferenciar é a questão do que foi feito efetivamente à mão e o que foi feito por máquinas. Juntamente aos chanfros, os ponteiros também são individualmente polidos um por um, por serem ainda mais delicados que o normal, caso fossem polidos por máquinas eles quebrariam, logo precisam ser polidos por um especialista.

@hairspringwatches
Em síntese, o calibre 233 foi por todos os ângulos um feito único. Não só pelo design mas pelo rigor técnico como um todo.
Mirage 34 e mais sobre a marca:
O segundo lançamento da marca foi uma versão mais conservadora do Mirage 38, agora em 34mm — minha preferida entre as duas. Não só pelo tamanho, mas pelo dial feito em pedra. No site, oficialmente eles fazem menção a dois modelos respectivamente nomeados pelas suas pedras: tiger eye e lapis lazuli. O que ficou de fora foi uma terceira versão, feita em 24 exemplares somente com um dial em crisoprásio, num tom vividamente verde.

@theydid
A ideia original era que essa pedra fosse usada regularmente, mas que não foi adiante pela delicadeza e fragilidade na hora de ser trabalhada, as peças foram oferecidas privativamente para colecionadores que já tinham um Berneron. Todas foram alocadas. Temos uma versão dessa variante indo a leilão em setembro, imagino que será vendida por mais de USD 300.000. Volto para falar sobre.
Paralelamente, tive o privilégio de conversar com um colecionador e amigo próximo que fotografou em primeira mão o Mirage 34 tiger eye. As fotos em sequência são inéditas e vindas diretamente de Thiago Takahashi (@montresetal), que me inspira fortemente também no quesito fotografia. O Mirage precisa de ampla sensibilidade em especial para ser fotografado. O relógio em questão vem de um colecionador americano, Scott Kaplan (@thedrummerdad), uma figura com profundo entendimento sobre relojoaria e que comprou uma peça diretamente com a Berneron.


Unanimemente entre os dois, o parecer sobre o relógio é de algo que foge de tudo que estamos acostumados, e que a atenção aos detalhes é notável desde o primeiro segundo. Em particular, o subdial dos segundos é esculpido à mão e tem uma concavidade diferente do restante da pedra, por ser um trabalho cem por cento manual, a taxa de sucesso de cada mostrador é fracionária.

Dentre inúmeros detalhes minuciosos, mais um feito que eu não tinha visto até então. Seguindo a mesma linha de acabamento do relógio, com as faces polidas e as laterais escovadas, o fecho (também distorcido, naturalmente) também segue com esse padrão. São spring-bars de ouro, fecho com dois acabamentos que remetem ao restante do relógio e ponteiros polidos à mão. Sylvain Berneron indiscutivelmente tem um cuidado ímpar com o que cria.



O que eu não abordei até agora, dentre outras coisas, foi justamente a questão dos preços, alocações e mercado secundário. Os preços dos Mirage são tabelados com reajustes anuais, e atualmente as versões 38 e 34 têm o valor de CHF 72’500 e CHF 58’500, respectivamente.
“nos primeiros anos, deixamos claro que diminuiríamos nossa margem. O colecionador que puxa o gatilho cedo assim merece o prêmio pelo risco que ele tomou.” - Berneron
Sylvain é um criador altamente versado e familiarizado com a relojoaria em diversos níveis. Existe um processo de compra e um monitoramento próximo da parte dele perante as peças que já estão no mercado. Com uma coleção nova já em vigor após os Mirage, com o mercado reagindo intensamente à marca e os processos de alocação e produção dignos de um aprofundamento dedicado, segue uma marca que merece ser elaborada por etapas.
Parte II em breve.



Próximas Leituras: coleção de duas peças por Jack Forster
Um dos editores mais queridos da relojoaria, Jack Forster é um dos nomes mais respeitados da indústria. Não só pelo conhecimento técnico invejável, mas pelo tempo que atua nesse segmento. São décadas de escrita técnica e num tom refinado, com uma voz e identidade próprias.
Enquanto era Editor-In-Chief da Hodinkee, Forster escreveu um dos artigos que eu mais gostei de ler até hoje: uma coleção de dois relógios que ele considera ideal. Quando li esse artigo pela primeira vez, minha percepção sobre relojoaria era drasticamente diferente do que é agora, quase dez anos depois da primeira leitura eu ainda adoro ver como ele aborda as duas peças, em como elas fazem sentido juntas e, em especial, o framework que Jack usa para pensar nesse tipo de assunto.
Vale cada segundo de leitura.
© 2026 Chronolab. Todos os direitos reservados.
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