Breguet é a marca mais subvalorizada da alta relojoaria.

Breguet é a marca mais subvalorizada da alta relojoaria.

Breguet é a marca mais subvalorizada da alta relojoaria.

Com um potencial único de diferenciação, o Swatch Group deixa muita exuberância na mesa

Com um potencial único de diferenciação, o Swatch Group deixa muita exuberância na mesa

Paulo Rabelo

Paulo Rabelo

11

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min

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Já cheguei perto de comprar um Breguet algumas vezes. É uma marca que vira e mexe aparece na mente de quem gosta de relógio. Porém, me parece que sempre de forma secundária, quase nunca como protagonista. Não porque os relógios não sejam bons, eles são bastante. Imagino que a imagem e posicionamento da marca no mercado não traduzem fundamentalmente o pedigree da coisa.

Com aproximadamente 250 anos de história, isso por si só já é um feito pouquíssimo igualado. No momento atual no qual as marcas fazem questão de projetar “legado” e “história” (foram fundadas há menos de meia década), no caso da Breguet sim vemos algo substancial. Um ponto que é sempre enfatizado pela Patek é justamente a sua história, seja também pelos amantes da marca ou por um catálogo em alguma casa de leilão, todos sabem que existem quase dois séculos por trás daquele nome. Uma vantagem clara sobre a A. Lange & Söhne e F.P.Journe, por exemplo, referenciar um passado que enaltece requer literalmente longos anos vividos. Isso não se compra, precisa invariavelmente ser feito.

Não obstante o tempo de atuação no mercado, criações que expandem o limite do possível, estética proprietária e bonita (uso a beleza aqui de forma não muito subjetiva, como aquelas estátuas belíssimas de mármore do século 18 que vemos e ficamos em choque completo) e acabamento sublime são variáveis inegociáveis que definem a relevância de uma marca, e curiosamente, todas esses critérios que mencionei podem ser atreladas à Breguet. Há bastante tempo eu penso sobre a marca e o que vem acontecendo com ela nos últimos anos, e com um relógio sensacional deles em mãos fica mais difícil ainda entender o porquê do nome não fazer mais sucesso do que faz.


Breguet Tradition 7027 (white gold)

Recentemente escutei em um podcast (The Enthusiasts - recomendo fortemente inclusive) que no final do dia o que a gente realmente quer são bons relógios. Simples assim. Com 37mm de diâmetro, um lug-to-lug de 45.4mm e a caixa em ouro branco, eu tranquilamente direcionei toda minha atenção quando peguei o relógio em mãos. Essa peça ilustra bem o que a marca consegue fazer e o porquê de eu achar que o potencial deles está desesperadamente desperdiçado.

O formato e arquitetura incomuns são precisamente intencionais. Aqui temos um dial que se mistura e se molda com o movimento. A forma como um todo remete à época em que Breguet fazia relógios de bolso, porém com uma sobriedade moderna bem marcante. O “dial” do dial, às 12hrs, é um disquinho sólido de ouro branco, recortado na máquina tradicional de guilloché, e depois tratado até chegar nesse tom opalino prateado. Os ponteiros, azuis e em formato “Breguet”, são de uma delicadeza e de uma elegância lindíssimas. O apreço por tradição e por iminência de fazer as coisas bem feitas é explícito.

O efeito que isso tem na prática é um dial que você constantemente admira, mesmo sem saber da história por trás disso. Porém, quando sabemos sobre o pedigree que o nome carrega, é impossível não dar mais valor ao que é visto. Eu me sinto mais elegante, no sentido mais literal da palavra, quando visto um relógio da marca. O tato aqui é notável, pois não só fiquei abismado com os pequeninos ponteiros num dos formatos mais lindos criados, azulados, com o prateado charmoso por trás, mas o balanço expressivo do lado direito em constante movimento é muito, mas muito legal de ficar vendo. Toda interação com o relógio se traduz em qualidade intrínseca.

Breguet ref. 5709 — mais um exemplo bem belo

O que a Breguet tem de especial?

É impossível não esbarrar em algum momento na marca quando nos aprofundamos em relojoaria no geral. Os relógios atuais são extremamente bem feitos, bem acabados e passam uma sensação muito premium para quem o veste. Isso já é mais do que o suficiente para convencer alguém de colocar a mão no bolso, em especial hoje em dia quando vemos as marcas cortando caminhos e pecando na execução de muitas coisas que fazem.

Considerado “Pai” da relojoaria moderna, Abraham-Louis Breguet foi responsável por marcos importantíssimos nos quesitos técnicos, mecânicos e estéticos desse meio. De forma ampla e resumida:

  • Numerais Breguet

  • Ponteiros Breguet (às vezes chamados de “moon-hands”)

  • Turbilhão: patenteado em 1801

  • Guilloché manual: embora não tenha inventado a técnica, foi quem a aperfeiçoou. A marca ainda faz um trabalho artesanal, nos moldes tradicionalíssimos do passado

  • Repetidor de minutos: aprimorou também essa complicação, criando sistemas mais precisos e melodiosos

  • Escapamento natural: inventado no final do século XVIII para melhorar a eficiência e a precisão dos relógios, menos dependente de componentes lubrificados. Não vejo problema em imaginar que essa invenção tenha inspirado, ao menos conceitualmente, o calibre do Rolex Land-Dweller lançado há alguns meses

Napoleão Bonaparte e Maria Antonieta

  • Napoleão: era cliente da marca, fato amplamente documentado. Adquiriu vários relógios ao longo dos anos

  • Maria Antonieta: dizem que em 1783, um admirador (provavelmente um amante) encomendou um relógio com o próprio Breguet, pedindo explicitamente o relógio mais avançado já feito, com todas as complicações possíveis. Tempo e custo eram irrelevantes. O relógio demorou 44 anos para ficar pronto. Por conta do longo período de fabricação, nem Maria Antonieta, nem o admirador, nem o próprio Breguet viram o relógio concluído, que foi finalizado por um aprendiz do relojoeiro

@hodinkee | Breguet 1160 uma réplica moderna feita pela Breguet exatamente como era o relógio feito para a Rainha Marie-Antoinette

Em um momento em que a alta costura abraça o “quiet luxury”, por exemplo, é mais um ponto evidente que a Breguet poderia tranquilamente capitalizar. No oposto do espectro de um Richard Mille (Balenciaga do mundo dos relógios? 🌶), a jogada de atrelar esse senso de nobreza ao posicionamento comercial da marca é tão nítida, tão natural, que eu simplesmente não entendo o porquê de não ser feito.

Por isso minha inquietude. Com um relógio extremamente bem feito como produto, e uma marca com uma linhagem regada por exuberância técnica e querida pela realeza, é subvalorizada?

Vamos ao Swatch Group

É nítido que não só eu, mas quem gosta de verdade do hobby também quer ver a Breguet prosperar. No próprio podcast que mencionei acima, eles também mencionam que inclusive outras marcas querem ver a Breguet caminhando bem. A marca pertence ao Swatch Group, ou seja, não opera de forma independente. Não podem tomar as próprias decisões sem passar por uma aprovação corporativa.

Um outro ponto relevante é que eu não sou um comprador típico de relógios. Eu faço questão de fatores específicos, penso e repenso o que eu quero, e sou bastante criterioso quando decido comprar algo. A maioria das pessoas (pelo menos a ampla parte da população que compra relógios) é mais flexível. Por isso acho importante ter isso em mente, pois nós somos uma parcela mais difícil de agradar do que o público mais amplo. Muitas das vezes nós celebramos muito mais com os produtos que essas companhias fazem do que as próprias pessoas que estão lá dentro.

Por isso os indies são tão admirados hoje em dia: eles pensam no consumidor de forma holística e não como um ponto estatístico de venda. Obviamente, tudo em suas devidas proporções, nem todo indie é santo e nem toda holding é maléfica. Eu inquestionavelmente acredito que a Breguet seria mais bem sucedida se fosse tocada de forma independente, justamente por então ser gerida por pessoas que entendem profundamente de relojoaria e não na geração de valor para o acionista.

@loupiosity | a Patek Philippe fez um relógio (ref. 3974P) com Breguet numerals maravilhoso, enquanto a própria Breguet, não executa algo assim atualmente

Com uma produção anual de aproximadamente 15.000 relógios, um balanço “saudável” e aquelas palavras mais de enfeite sobre “direcionar a imagem da marca para caminhos novos que não se distanciam da nossa história”, a Breguet tem um guidance pouco inspirador. A experiência na boutique não tem absolutamente nada de demais, e o mais preocupante é a percepção do público geral de relojoaria sobre a marca ser uma ótima compra só se for a preço de banana. Isso sim é muito nebuloso.

Entendo também a marca ter um appeal mais nichado, em especial pela estética e execução clássicas, mas mesmo assim, nada justifica esse descolamento entre o valor histórico e intrínseco da realidade de como a marca é vista. São muitos poucos relógios produzidos para tanta falta de apreço. O que mais me chama a atenção, além de tudo, é o Swatch Group achar isso relativamente ok. Trouxeram o CEO da Omega, Gregory Kissling, para tocar a Breguet. Entendo o ponto de eficiência operacional ser algo transferível de marca para marca, mas não sei se ele em particular, por mérito próprio ou limitações do grupo como um todo, tem o que é preciso para reerguer a marca.

Ao lado de um H. Moser & Cie. perpétuo, que por sinal é uma marca independente que vem fazendo um excelente trabalho graças a gestão atual

O que eu gostaria que fosse feito e uma outra perspectiva muito especial do meu convidado mais assíduo

São dois cenários que adoraria ver se tornando realidade com a Breguet, um deles improvável e outro mais plausível:

Cenário I: Private Equity (menos provável)

No modo wishful thinking, gostaria ver um grupo de amantes da relojoaria simplesmente comprando a marca. Seja um fundo europeu ou um fundo soberano árabe, fazendo questão de adquirir a Breguet para si e colocando as pessoas certas para tocar o negócio. Uma jogada de longo prazo, mas que finalmente fizesse jus a todo esse potencial maravilhoso que eles têm em mãos. Imaginem Horology Ancienne comprando a marca? E colocando as pessoas certas na liderança e no board. Um sonho!

Cenário II: Aquisição pela LVMH (mais provável)

Já houve alguns boatos sobre isso, com um valor em torno de USD 4B, mas nada concreto ou com alguma substância válida mesmo por trás. O grupo da Louis Vuitton vem fazendo um trabalho belíssimo com a Daniel Roth, uma outra marca com relevância histórica e que não ia bem, e está revitalizando a marca de uma forma nobre e cuidadosa. Sem muitas limitações de caixa e com uma capacidade grande de tocar mais um business de relógio, me parece algo de muito interesse para o grupo. As sinergias são claras e mais ainda, a vontade que a LVMH vem mostrando de ser um dos maiores players nessa esfera, mas de fato sendo zeloso em preservar não só a história das marcas, mas primordialmente os relógios que carregarão o nome daqui em diante.

@sjxwatches | um dos últimos modelos lançados pela Daniel Roth pós LVMH

Uma outra impressão: TT

Em complemento de toda a história fabulosa que a marca carrega, os relógios atuais (novamente) são muito bons. Em uma das nossas muitas conversas, falei com o TT coincidentemente sobre esse relógio que ele teve a oportunidade de fotografar. Ao longo do tempo, ele fotografou algumas peças do Scott Kaplan — e, dentre elas, estava esse Breguet.

Muito melhor do que eu poderia dizer, seguem as impressões em primeira mão do nosso convidado mais assíduo e presente:

“Por que mais pessoas não são obcecadas por isso aqui? Essa lua me fez pausar mais do que o normal, uma peça super fácil de usar. São múltiplos estilos de guilloché, e de alguma forma não sobrecarregam os olhos. Um rotor todo trabalhado, não falta nenhum detalhe.

Porém, a lua me fez parar. Fotografei mais de 120 relógios no último ano, e, dentro da coleção do Scott, essa foi uma das duas peças que se destacou. Como uma representação do pico que a marca sabe fazer, e de certa forma emulando o passado brilhante que teve.” — TT

📸: @montresetal ⌚️: @thedrummerdad | O grande destaque na lua, feita com uma técnica de “hand-hammering”, que significa martelada à mão. Imaginem a minúcia do trabalho totalmente manual para alcançar esse nível de detalhe e graciosidade. É realmente muito encantador.

De forma totalmente ao acaso, uma figura que considero uma das pessoas de mais bom gosto e maior perspicácia no hobby ficou positivamente surpresa com um Breguet. O TT é constantemente exposto a várias peças lindas, sejam do Scott ou outras ao seu redor, e o relógio com a lua bonita cativou além de qualquer dúvida.

Assim como eu, ele também não entende o porquê da marca estar na posição que está, e a conclusão é invariável: a Breguet poderia, e não só isso, mas deveria ser mais bem gerida e consequentemente mais apreciada pela ampla comunidade.


Esse artigo foi originalmente escrito em 2025, farei um follow-up com novidades relevantes sobre a marca em breve…

Já cheguei perto de comprar um Breguet algumas vezes. É uma marca que vira e mexe aparece na mente de quem gosta de relógio. Porém, me parece que sempre de forma secundária, quase nunca como protagonista. Não porque os relógios não sejam bons, eles são bastante. Imagino que a imagem e posicionamento da marca no mercado não traduzem fundamentalmente o pedigree da coisa.

Com aproximadamente 250 anos de história, isso por si só já é um feito pouquíssimo igualado. No momento atual no qual as marcas fazem questão de projetar “legado” e “história” (foram fundadas há menos de meia década), no caso da Breguet sim vemos algo substancial. Um ponto que é sempre enfatizado pela Patek é justamente a sua história, seja também pelos amantes da marca ou por um catálogo em alguma casa de leilão, todos sabem que existem quase dois séculos por trás daquele nome. Uma vantagem clara sobre a A. Lange & Söhne e F.P.Journe, por exemplo, referenciar um passado que enaltece requer literalmente longos anos vividos. Isso não se compra, precisa invariavelmente ser feito.

Não obstante o tempo de atuação no mercado, criações que expandem o limite do possível, estética proprietária e bonita (uso a beleza aqui de forma não muito subjetiva, como aquelas estátuas belíssimas de mármore do século 18 que vemos e ficamos em choque completo) e acabamento sublime são variáveis inegociáveis que definem a relevância de uma marca, e curiosamente, todas esses critérios que mencionei podem ser atreladas à Breguet. Há bastante tempo eu penso sobre a marca e o que vem acontecendo com ela nos últimos anos, e com um relógio sensacional deles em mãos fica mais difícil ainda entender o porquê do nome não fazer mais sucesso do que faz.


Breguet Tradition 7027 (white gold)

Recentemente escutei em um podcast (The Enthusiasts - recomendo fortemente inclusive) que no final do dia o que a gente realmente quer são bons relógios. Simples assim. Com 37mm de diâmetro, um lug-to-lug de 45.4mm e a caixa em ouro branco, eu tranquilamente direcionei toda minha atenção quando peguei o relógio em mãos. Essa peça ilustra bem o que a marca consegue fazer e o porquê de eu achar que o potencial deles está desesperadamente desperdiçado.

O formato e arquitetura incomuns são precisamente intencionais. Aqui temos um dial que se mistura e se molda com o movimento. A forma como um todo remete à época em que Breguet fazia relógios de bolso, porém com uma sobriedade moderna bem marcante. O “dial” do dial, às 12hrs, é um disquinho sólido de ouro branco, recortado na máquina tradicional de guilloché, e depois tratado até chegar nesse tom opalino prateado. Os ponteiros, azuis e em formato “Breguet”, são de uma delicadeza e de uma elegância lindíssimas. O apreço por tradição e por iminência de fazer as coisas bem feitas é explícito.

O efeito que isso tem na prática é um dial que você constantemente admira, mesmo sem saber da história por trás disso. Porém, quando sabemos sobre o pedigree que o nome carrega, é impossível não dar mais valor ao que é visto. Eu me sinto mais elegante, no sentido mais literal da palavra, quando visto um relógio da marca. O tato aqui é notável, pois não só fiquei abismado com os pequeninos ponteiros num dos formatos mais lindos criados, azulados, com o prateado charmoso por trás, mas o balanço expressivo do lado direito em constante movimento é muito, mas muito legal de ficar vendo. Toda interação com o relógio se traduz em qualidade intrínseca.

Breguet ref. 5709 — mais um exemplo bem belo

O que a Breguet tem de especial?

É impossível não esbarrar em algum momento na marca quando nos aprofundamos em relojoaria no geral. Os relógios atuais são extremamente bem feitos, bem acabados e passam uma sensação muito premium para quem o veste. Isso já é mais do que o suficiente para convencer alguém de colocar a mão no bolso, em especial hoje em dia quando vemos as marcas cortando caminhos e pecando na execução de muitas coisas que fazem.

Considerado “Pai” da relojoaria moderna, Abraham-Louis Breguet foi responsável por marcos importantíssimos nos quesitos técnicos, mecânicos e estéticos desse meio. De forma ampla e resumida:

  • Numerais Breguet

  • Ponteiros Breguet (às vezes chamados de “moon-hands”)

  • Turbilhão: patenteado em 1801

  • Guilloché manual: embora não tenha inventado a técnica, foi quem a aperfeiçoou. A marca ainda faz um trabalho artesanal, nos moldes tradicionalíssimos do passado

  • Repetidor de minutos: aprimorou também essa complicação, criando sistemas mais precisos e melodiosos

  • Escapamento natural: inventado no final do século XVIII para melhorar a eficiência e a precisão dos relógios, menos dependente de componentes lubrificados. Não vejo problema em imaginar que essa invenção tenha inspirado, ao menos conceitualmente, o calibre do Rolex Land-Dweller lançado há alguns meses

Napoleão Bonaparte e Maria Antonieta

  • Napoleão: era cliente da marca, fato amplamente documentado. Adquiriu vários relógios ao longo dos anos

  • Maria Antonieta: dizem que em 1783, um admirador (provavelmente um amante) encomendou um relógio com o próprio Breguet, pedindo explicitamente o relógio mais avançado já feito, com todas as complicações possíveis. Tempo e custo eram irrelevantes. O relógio demorou 44 anos para ficar pronto. Por conta do longo período de fabricação, nem Maria Antonieta, nem o admirador, nem o próprio Breguet viram o relógio concluído, que foi finalizado por um aprendiz do relojoeiro

@hodinkee | Breguet 1160 uma réplica moderna feita pela Breguet exatamente como era o relógio feito para a Rainha Marie-Antoinette

Em um momento em que a alta costura abraça o “quiet luxury”, por exemplo, é mais um ponto evidente que a Breguet poderia tranquilamente capitalizar. No oposto do espectro de um Richard Mille (Balenciaga do mundo dos relógios? 🌶), a jogada de atrelar esse senso de nobreza ao posicionamento comercial da marca é tão nítida, tão natural, que eu simplesmente não entendo o porquê de não ser feito.

Por isso minha inquietude. Com um relógio extremamente bem feito como produto, e uma marca com uma linhagem regada por exuberância técnica e querida pela realeza, é subvalorizada?

Vamos ao Swatch Group

É nítido que não só eu, mas quem gosta de verdade do hobby também quer ver a Breguet prosperar. No próprio podcast que mencionei acima, eles também mencionam que inclusive outras marcas querem ver a Breguet caminhando bem. A marca pertence ao Swatch Group, ou seja, não opera de forma independente. Não podem tomar as próprias decisões sem passar por uma aprovação corporativa.

Um outro ponto relevante é que eu não sou um comprador típico de relógios. Eu faço questão de fatores específicos, penso e repenso o que eu quero, e sou bastante criterioso quando decido comprar algo. A maioria das pessoas (pelo menos a ampla parte da população que compra relógios) é mais flexível. Por isso acho importante ter isso em mente, pois nós somos uma parcela mais difícil de agradar do que o público mais amplo. Muitas das vezes nós celebramos muito mais com os produtos que essas companhias fazem do que as próprias pessoas que estão lá dentro.

Por isso os indies são tão admirados hoje em dia: eles pensam no consumidor de forma holística e não como um ponto estatístico de venda. Obviamente, tudo em suas devidas proporções, nem todo indie é santo e nem toda holding é maléfica. Eu inquestionavelmente acredito que a Breguet seria mais bem sucedida se fosse tocada de forma independente, justamente por então ser gerida por pessoas que entendem profundamente de relojoaria e não na geração de valor para o acionista.

@loupiosity | a Patek Philippe fez um relógio (ref. 3974P) com Breguet numerals maravilhoso, enquanto a própria Breguet, não executa algo assim atualmente

Com uma produção anual de aproximadamente 15.000 relógios, um balanço “saudável” e aquelas palavras mais de enfeite sobre “direcionar a imagem da marca para caminhos novos que não se distanciam da nossa história”, a Breguet tem um guidance pouco inspirador. A experiência na boutique não tem absolutamente nada de demais, e o mais preocupante é a percepção do público geral de relojoaria sobre a marca ser uma ótima compra só se for a preço de banana. Isso sim é muito nebuloso.

Entendo também a marca ter um appeal mais nichado, em especial pela estética e execução clássicas, mas mesmo assim, nada justifica esse descolamento entre o valor histórico e intrínseco da realidade de como a marca é vista. São muitos poucos relógios produzidos para tanta falta de apreço. O que mais me chama a atenção, além de tudo, é o Swatch Group achar isso relativamente ok. Trouxeram o CEO da Omega, Gregory Kissling, para tocar a Breguet. Entendo o ponto de eficiência operacional ser algo transferível de marca para marca, mas não sei se ele em particular, por mérito próprio ou limitações do grupo como um todo, tem o que é preciso para reerguer a marca.

Ao lado de um H. Moser & Cie. perpétuo, que por sinal é uma marca independente que vem fazendo um excelente trabalho graças a gestão atual

O que eu gostaria que fosse feito e uma outra perspectiva muito especial do meu convidado mais assíduo

São dois cenários que adoraria ver se tornando realidade com a Breguet, um deles improvável e outro mais plausível:

Cenário I: Private Equity (menos provável)

No modo wishful thinking, gostaria ver um grupo de amantes da relojoaria simplesmente comprando a marca. Seja um fundo europeu ou um fundo soberano árabe, fazendo questão de adquirir a Breguet para si e colocando as pessoas certas para tocar o negócio. Uma jogada de longo prazo, mas que finalmente fizesse jus a todo esse potencial maravilhoso que eles têm em mãos. Imaginem Horology Ancienne comprando a marca? E colocando as pessoas certas na liderança e no board. Um sonho!

Cenário II: Aquisição pela LVMH (mais provável)

Já houve alguns boatos sobre isso, com um valor em torno de USD 4B, mas nada concreto ou com alguma substância válida mesmo por trás. O grupo da Louis Vuitton vem fazendo um trabalho belíssimo com a Daniel Roth, uma outra marca com relevância histórica e que não ia bem, e está revitalizando a marca de uma forma nobre e cuidadosa. Sem muitas limitações de caixa e com uma capacidade grande de tocar mais um business de relógio, me parece algo de muito interesse para o grupo. As sinergias são claras e mais ainda, a vontade que a LVMH vem mostrando de ser um dos maiores players nessa esfera, mas de fato sendo zeloso em preservar não só a história das marcas, mas primordialmente os relógios que carregarão o nome daqui em diante.

@sjxwatches | um dos últimos modelos lançados pela Daniel Roth pós LVMH

Uma outra impressão: TT

Em complemento de toda a história fabulosa que a marca carrega, os relógios atuais (novamente) são muito bons. Em uma das nossas muitas conversas, falei com o TT coincidentemente sobre esse relógio que ele teve a oportunidade de fotografar. Ao longo do tempo, ele fotografou algumas peças do Scott Kaplan — e, dentre elas, estava esse Breguet.

Muito melhor do que eu poderia dizer, seguem as impressões em primeira mão do nosso convidado mais assíduo e presente:

“Por que mais pessoas não são obcecadas por isso aqui? Essa lua me fez pausar mais do que o normal, uma peça super fácil de usar. São múltiplos estilos de guilloché, e de alguma forma não sobrecarregam os olhos. Um rotor todo trabalhado, não falta nenhum detalhe.

Porém, a lua me fez parar. Fotografei mais de 120 relógios no último ano, e, dentro da coleção do Scott, essa foi uma das duas peças que se destacou. Como uma representação do pico que a marca sabe fazer, e de certa forma emulando o passado brilhante que teve.” — TT

📸: @montresetal ⌚️: @thedrummerdad | O grande destaque na lua, feita com uma técnica de “hand-hammering”, que significa martelada à mão. Imaginem a minúcia do trabalho totalmente manual para alcançar esse nível de detalhe e graciosidade. É realmente muito encantador.

De forma totalmente ao acaso, uma figura que considero uma das pessoas de mais bom gosto e maior perspicácia no hobby ficou positivamente surpresa com um Breguet. O TT é constantemente exposto a várias peças lindas, sejam do Scott ou outras ao seu redor, e o relógio com a lua bonita cativou além de qualquer dúvida.

Assim como eu, ele também não entende o porquê da marca estar na posição que está, e a conclusão é invariável: a Breguet poderia, e não só isso, mas deveria ser mais bem gerida e consequentemente mais apreciada pela ampla comunidade.


Esse artigo foi originalmente escrito em 2025, farei um follow-up com novidades relevantes sobre a marca em breve…

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