Direto do dono: Grand Seiko SBGY023

Direto do dono: Grand Seiko SBGY023

Direto do dono: Grand Seiko SBGY023

Supostamente simples. Supostamente.

Supostamente simples. Supostamente.

Paulo Rabelo

Paulo Rabelo

16

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min

min

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É um relógio que eu tenho há pouco mais de um ano, e desde o primeiro momento foi notável que, muito provavelmente, é um dos relógios mais singulares que tive em mãos.

A minha história com a Grand Seiko começa mesmo em 2018, quando comprei meu primeiro relógio da marca. Na época, eu demorei cerca de uns nove meses de pesquisa até bater o martelo em qual relógio deles eu queria, e cheguei à conclusão que o SBGM221 era o “the one”. Eu tinha um layover de um dia em Miami, e a única coisa que me interessei em fazer por ali era achar uma boutique da Seiko na qual eu pudesse ver o relógio. Dito e feito, eu cheguei à boutique com três horas de sono no sistema e a primeira peça que pedi para ver foi o GMT creme. O vendedor, até então super simpático, foi naturalmente me contando sobre o relógio e a marca. Dentre papos, algumas doses de uísque japonês e, literalmente, todos os relógios da loja passando pelas minhas mãos, fiquei mais de três horas imerso naquilo ali. Enfim, eu consegui ver os detalhes que todo santo YouTuber falava. Não era exagero, era tudo o que falavam e mais. O vendedor, o queridíssimo Joel Rivera, é uma parte integral da experiência, não só até aqui, mas pelo que virá também.

Meses depois, em 2019, eu acho que nunca me esquecerei de quando vi pela primeira vez um relógio com a mesma caixa do SBGY023. Foi um lançamento novo, com justamente essa caixa peculiar — legitimamente uma introdução nova, nunca tinha sido feita até então. Estava lá, eu, esperando para entrar em uma reunião do meu estágio em consultoria, e abri o app da Hodinkee para ver o último artigo. Era um artigo sobre o SBGK005 e, mesmo rapidamente por fotos e sem muitos detalhes, algo me chamou bem a atenção.

Stephen Pulvirent para Hodinkee

Cerca de meio ano depois disso, quase puxei o gatilho nessa referência com esse dial azul deslumbrante. Na verdade, eu só não fui em frente porque minha conta bancária não permitia. Vi o relógio pessoalmente, novamente na mesma loja onde comprei o outro GS, e todas as fotos, todos os vídeos, todos os comentários sobre o relógio ser refrescantemente bom eram, novamente, verdade. Eu nunca mais me esqueci daquela caixa peculiar e do encaixe mais confortável que tive no punho (em um relógio de pulseira de couro), até hoje.

Em 2022, a GS lança a referência proeminente do artigo, o SBGY023. Obviamente, fiquei bem vidrado, logo que vi a primeira foto notei a caixa peculiar que eu sempre tive no fundo da mente, porém com um dial novo. Cinza. Minha cor favorita, na caixa que eu já amava sem nem ter. Os detalhes minuciosos virão em breve, mas o ponto aqui é: não era um lançamento comum. Não bastava aparecer na loja e comprar. Era uma edição limitada de 299 peças para os membros do “G9 Club USA” — dada a expansão da GS no mercado americano, alguns fãs da marca se uniram para criar esse clube e fomentar uma cultura forte com a marca na geografia deles.

Para entrar no clube, bastava ter comprado um GS direto de um dealer autorizado ou loja, que luz verde para entrar. Eu tinha um relógio, mas, novamente, não tinha os fundos. Pela cor coringa do dial e por essencialmente estar em um pacote que já vinha agradando bastante os clientes da marca, o relógio deu sold-out em questão de dias. Au revoir, SBGY023.

Curiosamente, o mesmo autor que fez o vídeo que eu considero mais marcante do “Week on the Wrist” com o SBGK005 foi também a mesma pessoa com a qual eu vi o primeiro post sobre o novato com o dial cinza. Stephen Pulvirent já quase me fez gastar uma quantia absurda em relógios, sem nem saber que eu existo. Ele fez o artigo sobre o relógio com o dial azul e não resistiu ao relógio de 2022 e, logo que foi lançado, além de falar sobre, ele comprou um.


Muito legal, Paulo, mas e o seu relógio? Prossiga, por favor.

Dois anos depois do lançamento do relógio, eu decidi ir atrás dele. Imaginando que estava sold-out, eu sinceramente pensei em ir direto para o mercado secundário e achar um em “mint condition”. De todo modo, me lembrei do Joel, sempre tão educado e afiado, e, nos meus contatos do WhatsApp, mandei um “friendly hello” para ele e perguntei se por algum milagre, era possível conseguir um desses relógios ainda, direto pela boutique deles. Sim, ainda tinha um disponível. Enquanto nós falávamos por telefone (no térreo do meu prédio), eu lembro como se fosse ontem do calafrio que eu senti, um mix de empolgação, pois foram dois anos querendo o fcnk relógio, e levemente com o frio na barriga de cometer uma leve irresponsabilidade financeira.

Não é que eu já tinha lido um ou dois artigos sobre o relógio, ou visto um review. Eu consumi repetidamente, vi, revi, li, reli tudo que eu pude sobre o relógio. Tudo que tinha de disponível na internet, eu fui atrás. Eu queria ter plena certeza em puxar o gatilho, dado que estava no Brasil e fazendo uma compra em outro hemisfério. “Posso falar os números do cartão?”.

E aqui vai o primeiro ponto totalmente fora da curva sem nem ter tocado no relógio. O atendimento do Joel, depois de anos de termos tido nosso primeiro contato, foi o melhor que eu já tive até hoje. E digo isso dentre todas as marcas, dentre todas as compras, em todos os cantos onde já fui. Joel superou as maiores grifes do mundo, inclusive de relógios (pelo menos dos que eu já tive). Com muita autenticidade, muita atenção e um ímpeto raríssimo de querer fazer dar certo e que eu tivesse a peça da melhor forma possível. Foi o ápice do customer service — com um cliente que nunca gastou uma fábula na loja, ou que sequer estava comprando o relógio mais caro da marca —, eu mesmo tento emular esse tratamento no meu âmbito profissional.

Foi a minha compra mais demorada e mais bem pensada até então. Não foi a mais cara, mas foi a que mais me demandou. Preço é uma coisa genuinamente muito subjetiva nesse universo.


No Metal:

O relógio chegou até mim poucas semanas depois com um amigo que, quando recebeu o relógio, me falou: “É o Grand Seiko mais bonito que já vi” — esse rapaz em particular tem uma certa proximidade com o que existe de melhor e mais fino do mundo dos relógios, então escutar isso foi, no mínimo, impactante.

Quando o relógio chegou, em teoria, eu já “sabia” o que esperar. Já tinha visto e lido tudo o que dava, então não era para ter nenhuma surpresa. E realmente não tive no primeiro momento. A coisa tomou um rumo mais profundo alguns dias depois. Depois de olhar aquele relógio cinza de perto em diferentes situações, as coisas começaram a ficar mais intrigantes. É nítida uma sensibilidade japonesa em tudo que a GS faz, mas aqui foi bem, mas bem mais adiante.

Para que eu consiga transmitir isso que disse acima de forma minimamente sensata, vou separar cada elemento do relógio e o que especificamente ali me chamou a atenção. A soma de tudo precisa que as coisas sejam entendidas individualmente, pois de forma simples, um relógio com três ponteiros e sem complicações não vai muito além disso. Em teoria.

Ao primeiro olhar, temos isso aqui

Horas, minutos e segundos…

Objetivamente, temos um relógio time-only. Doze índices, o logo da marca em alto-relevo, Grand Seiko, e embaixo “Spring Drive” escrito em azul às 6 horas.

Não diferente de outros relógios da marca, todas as facetas dos índices são perfeitamente bem acabadas e facetadas. Por não ter lúmen nenhum, o relógio reflete bem cada cantinho de luz que passa por ali. A qualquer momento que você olhar para o dial, os índices nunca estarão da mesma cor. O black-polishing, extremamente bem feito com múltiplas facetas reflexivas, deixa sempre algum ponto de luz em destaque. É notório levantar o pulso e notar um índice brilhando mais do que o outro.

O formato dos índices foi lançado em conjunto com a caixa nova. Particularmente, acho o fato deles serem levemente mais alongados e irem se afinando nas pontas de uma elegância ímpar. Só aqui já começamos a notar uma sensibilidade a mais — o trabalho de acrescentar várias facetas e ângulos a uma parte tão pequena deixa explícito o comprometimento da GS em querer fazer algo bom. Pensar no fato de irem se afunilando, idem. É difícil ver as marcas tradicionais fazendo esse tipo de questão, em especial em um relógio que custe menos que $10.000 USD.

Em paralelo à escrita em azul, temos o anel externo no dial com as marcações de minutos individuais em um marinho bem sutil; por serem bem pequeninas, é exatamente aquele tipo de detalhe que requer um “look closer” à la John Mayer.

Os ponteiros em estilo dauphine são delicados e extremamente interativos com a luz. Os chanfros são muito marcantes, refletem mesmo a luminosidade e, em praticamente qualquer foto, se destacam. Toda vez que olho para o relógio, não me canso de ver os ponteiros com as bordas praticamente acesas de luz. Tradicionalmente, com sua cor atingida por tratamento à base de fogo, o ponteiro dos segundos tem um tom metálico azulado lindo, bem mais fácil de ser visto e extremamente charmoso em complemento ao aspecto mais sóbrio do relógio.

Não obstante todos os detalhes minuciosos e discretos (pelo menos em primeiro plano), o dial em si é o que faz o relógio ser um caso à parte. Existem outras referências com exatamente as mesmas características deste relógio em produção regular. O que diferencia eles dos demais: tom e textura.

Aqui começa uma interação levemente mais aprofundada do que a GS faz nas suas execuções, pois tanto o tom do mostrador quanto sua textura se alteram bastante à medida que são observados em ângulos e iluminações diferentes.

Logo que tive ele em mãos, a melhor forma que eu conseguia explicar a textura para algum amigo era como se fosse uma versão mais leve dos dials dos Datejust vintage conhecidos como “linen dial”. De todo modo, Paulo Cuenca astutamente comentou que lembrava um papiro egípcio. Até hoje, foi a melhor forma de explicar o tipo da textura ali sem uma foto em mãos. É exatamente essa a sensação que temos ao ver esse dial.

Dependendo do ângulo, os “risquinhos” texturizados somem, e vemos apenas uma superfície chapada cinza. Eles somem e aparecem num piscar de olhos. Tenho o relógio há pouco mais de um ano, simplesmente não me canso disso. Toda vez que ponho ele no punho, me pego notando isso. Como referência, a marca denomina esse tipo de textura como “Kira-zuri”, traduzido como pintura brilhante.

O outro ponto, definitivamente não menos importante, é a cor. O tom de cinza usado aqui não é usado em nenhum outro mostrador do catálogo. É um tom cinza, com um leve undertone champagne que dependendo da iluminação, deixa o dial levemente dourado. É uma coisa surreal. A cor reage de forma quase viva à exposição de luz, e isso torna o relógio memorável: em um momento temos algo totalmente sóbrio e em outro, temos algo que traz várias camadas de textura e cor brincando entre si.


A caixa:

Como mencionado antes, a caixa não é nova para o modelo, e, desde que a coloquei pela primeira vez, nunca esqueci o quão confortável e bonita ela de fato é. Em total sinergia com o dial, aqui é mais um ponto onde no primeiro olhar, temos algo simples, até notarmos os detalhes, que novamente são sutis e encantadores por natureza. Em formato de “cushion”, temos as seguintes dimensões:

  • 38.5 mm de diâmetro

  • 10.2 mm de altura

  • 43.7 mm de lug-to-lug (é aqui que a cushion case faz tanta diferença; por ter esse formato peculiar com os lugs curtos, sem serem soldados à caixa, fazem com que o relógio vista maravilhosamente bem no punho)

A caixa segue bem a filosofia da marca, remetendo ao “grammar of design” e introduzindo o toque japonês ao produto final. Um detalhe sutil que eu reparei pela primeira vez em 2019 foi o chanfro na parte de dentro dos lugs. Eu nunca tinha visto isso antes. Notem: em cada lug, no final de cada um, quando vão se fundindo com a caixa, um leve angulado na parte interior. É a isso que me refiro. Esse leve toque, novamente, faz com que pequenos pontos de luz sejam refletidos e dá aquela pitada de tempero a mais em uma caixa que, tradicionalmente, não recebe esse tipo de atenção. A Grand Seiko mostra repetidamente que, literalmente, cada canto foi tratado como igual.

Olhando a lateral, temos uma silhueta que acompanha fielmente a forma arredondada do bezel. A parte exterior da caixa, desde seu início, vai se curvando quase que de forma orgânica — é um detalhe notório desse relógio a quantidade de curvas que vemos. Tudo é muito suave aos olhos. Não temos ângulos fortes e dramáticos, realmente vemos e sentimos que é algo refinado em todos os sentidos. Aqui, a lateral externa é toda escovada, adicionando um tipo extra de acabamento (que eu gosto bastante) e trazendo uma espécie de leveza ao relógio, contrabalanceando um pouco o destaque nas superfícies polidas.

Olhando para o bezel, ele é fino e sucinto, deixando com que o dial seja bem expansivo e muitas vezes confundindo o tamanho do relógio para quem o olha pela primeira vez. Relógios com dials mais evidentes e bezels menores tendem a causar esse efeito. Temos praticamente um disco de aço black-polished levemente angulado, nada muito especial. Porém, algo que só fui notar alguns dias depois de ter o relógio é como ele se comporta com a safira.

É um outro elemento novo em conjunto com a caixa. Esse formato de safira, único até então, é abaulado de uma forma diferente. Novamente, nunca vi nada igual. Ela vai diminuindo nas suas extremidades de forma gradual até chegar no bezel. No centro do relógio ela tem uma altura; no encontro com o bezel, ela está mais fina. A melhor forma que eu consigo descrever isso é como se fosse uma bolha com uma leve indentação. Mas o mais curioso aqui (além disso tudo) é como a caixa, o bezel e a safira se comportam em conjunto:

esse mix faz com que essas partes criem uma espécie de camada entre elas, com 4 pontos nivelados diferentes. Quando eu saquei isso, fiquei em êxtase. Fiquei novamente enquanto escrevo aqui


O Movimento

Em alguns artigos atrás, eu comentei sobre os relógios que eu compraria hoje com 50.000 USD. Um deles, o Credor Eichi II, que, por sinal, tem um movimento com um acabamento sublime e uma arquitetura lindíssima. Para minha sorte, o SBGY023 veio com um movimento que lembra a obra-prima feita pela Credor. O movimento em questão é o 9R31 Spring Drive. Introduzido em 2019, foi uma adição aos demais Spring Drives, com uma arquitetura, acabamento e espessura como novidades.

Reconhecendo o esforço da GS em escutar seu público, o Snowflake é frequentemente criticado por ter sua reserva de marcha aparente no dial. Aqui, para preservar a simetria e estética, esse indicador foi movido para o movimento. Ali, no canto superior direito, tem uma seta azul envolvida por um semicírculo. Ali é a reserva de marcha, particularmente bem útil nesse calibre, pois ele é manual. 72 horas de reserva de marcha e uma precisão de ±15 segundos por mês deixam o pacote ainda melhor.

O que chama a atenção logo de imediato é a placa única que cobre praticamente todo o movimento. Com um acabamento minuciosamente bem escovado, vemos várias linhas verticais reluzindo à medida que mudamos a orientação do nosso olhar. É um contraste forte com o polimento da parte superior da caixa e, regado de pequenos “furos” ao longo da placa toda, fortemente caracterizados pelos chanfros largos. Confesso que gosto muito desse mix de elementos aqui, em especial o toque dos chanfros bem evidentes; é bem interessante ver a luz refletindo ali. Não obstante a isso, os parafusos são todos aquecidos até chegarem no tom de azul que têm, e o logo da marca não é carimbado, mas sim gravado e preenchido com um laqueado azul típico da GS. Isso tudo em forma praticamente de miniatura.

Um belo bônus: conseguimos ver o “glide wheel” do Spring Drive rodando dentro dos círculos da parte inferior. Isso que essencialmente faz o ponteiro dos segundos deslizar pelo dial daquela forma hipnotizante que só a GS consegue. Se somar o tempo que já fiquei observando isso, com certeza já deram algumas horas.

Em relação à mecânica do Spring Drive, isso daria um (aliás, vários) artigos por si só.

“Pense no Spring Drive como um relógio mecânico que ‘pensa’ como um quartzo. A mola principal dá a energia, o trem de engrenagens a transmite, e o Regulador Tri-Synchro (com quartzo, gerador e freio) a controla com precisão absoluta. A GS demorou 28 anos e construiu mais de 600 protótipos para fazerem seu primeiro Spring Drive” — resumo de um artigo publicado no GS9 Club.


O resumo da obra:

Acho que talvez o que mais me fascina é o fato desse relógio poder ser tão simples num primeiro olhar, mas extremamente regado de detalhes quando se olha de perto e por um período mais prolongado. É firmemente impossível alguém perceber tudo que tem aqui por um relance. Passa totalmente despercebido para quem não tem isso como hobby. Em teoria, é só mais um relógio. Na prática, é um exercício singular de algo simples extremamente bem feito.

No espírito do Bond em Casino Royale: “Because once you’ve tasted it, that’s all you want to drink” — e, de certa forma, é assim que interpreto esse relógio.


Um ponto relevante: durante todo o artigo o relógio apareceu em diversas pulseiras diferentes, pois é exatamente assim que eu o uso. Tenho inúmeras pulseiras azuis e cinzas que troco com bastante frequência, em especial nesta peça são as duas cores que mais me agradam, então tenho mesmo o hábito de trocá-las. Ele veio originalmente em uma pulseira de couro de crocodilo cinza escuro, que eu nunca usei. Desde o primeiro momento sempre o coloquei nas que gosto mais.

É um relógio que eu tenho há pouco mais de um ano, e desde o primeiro momento foi notável que, muito provavelmente, é um dos relógios mais singulares que tive em mãos.

A minha história com a Grand Seiko começa mesmo em 2018, quando comprei meu primeiro relógio da marca. Na época, eu demorei cerca de uns nove meses de pesquisa até bater o martelo em qual relógio deles eu queria, e cheguei à conclusão que o SBGM221 era o “the one”. Eu tinha um layover de um dia em Miami, e a única coisa que me interessei em fazer por ali era achar uma boutique da Seiko na qual eu pudesse ver o relógio. Dito e feito, eu cheguei à boutique com três horas de sono no sistema e a primeira peça que pedi para ver foi o GMT creme. O vendedor, até então super simpático, foi naturalmente me contando sobre o relógio e a marca. Dentre papos, algumas doses de uísque japonês e, literalmente, todos os relógios da loja passando pelas minhas mãos, fiquei mais de três horas imerso naquilo ali. Enfim, eu consegui ver os detalhes que todo santo YouTuber falava. Não era exagero, era tudo o que falavam e mais. O vendedor, o queridíssimo Joel Rivera, é uma parte integral da experiência, não só até aqui, mas pelo que virá também.

Meses depois, em 2019, eu acho que nunca me esquecerei de quando vi pela primeira vez um relógio com a mesma caixa do SBGY023. Foi um lançamento novo, com justamente essa caixa peculiar — legitimamente uma introdução nova, nunca tinha sido feita até então. Estava lá, eu, esperando para entrar em uma reunião do meu estágio em consultoria, e abri o app da Hodinkee para ver o último artigo. Era um artigo sobre o SBGK005 e, mesmo rapidamente por fotos e sem muitos detalhes, algo me chamou bem a atenção.

Stephen Pulvirent para Hodinkee

Cerca de meio ano depois disso, quase puxei o gatilho nessa referência com esse dial azul deslumbrante. Na verdade, eu só não fui em frente porque minha conta bancária não permitia. Vi o relógio pessoalmente, novamente na mesma loja onde comprei o outro GS, e todas as fotos, todos os vídeos, todos os comentários sobre o relógio ser refrescantemente bom eram, novamente, verdade. Eu nunca mais me esqueci daquela caixa peculiar e do encaixe mais confortável que tive no punho (em um relógio de pulseira de couro), até hoje.

Em 2022, a GS lança a referência proeminente do artigo, o SBGY023. Obviamente, fiquei bem vidrado, logo que vi a primeira foto notei a caixa peculiar que eu sempre tive no fundo da mente, porém com um dial novo. Cinza. Minha cor favorita, na caixa que eu já amava sem nem ter. Os detalhes minuciosos virão em breve, mas o ponto aqui é: não era um lançamento comum. Não bastava aparecer na loja e comprar. Era uma edição limitada de 299 peças para os membros do “G9 Club USA” — dada a expansão da GS no mercado americano, alguns fãs da marca se uniram para criar esse clube e fomentar uma cultura forte com a marca na geografia deles.

Para entrar no clube, bastava ter comprado um GS direto de um dealer autorizado ou loja, que luz verde para entrar. Eu tinha um relógio, mas, novamente, não tinha os fundos. Pela cor coringa do dial e por essencialmente estar em um pacote que já vinha agradando bastante os clientes da marca, o relógio deu sold-out em questão de dias. Au revoir, SBGY023.

Curiosamente, o mesmo autor que fez o vídeo que eu considero mais marcante do “Week on the Wrist” com o SBGK005 foi também a mesma pessoa com a qual eu vi o primeiro post sobre o novato com o dial cinza. Stephen Pulvirent já quase me fez gastar uma quantia absurda em relógios, sem nem saber que eu existo. Ele fez o artigo sobre o relógio com o dial azul e não resistiu ao relógio de 2022 e, logo que foi lançado, além de falar sobre, ele comprou um.


Dois anos depois do lançamento do relógio, eu decidi ir atrás dele. Imaginando que estava sold-out, eu sinceramente pensei em ir direto para o mercado secundário e achar um em “mint condition”. De todo modo, me lembrei do Joel, sempre tão educado e afiado, e, nos meus contatos do WhatsApp, mandei um “friendly hello” para ele e perguntei se por algum milagre, era possível conseguir um desses relógios ainda, direto pela boutique deles. Sim, ainda tinha um disponível. Enquanto nós falávamos por telefone (no térreo do meu prédio), eu lembro como se fosse ontem do calafrio que eu senti, um mix de empolgação, pois foram dois anos querendo o fcnk relógio, e levemente com o frio na barriga de cometer uma leve irresponsabilidade financeira.

Não é que eu já tinha lido um ou dois artigos sobre o relógio, ou visto um review. Eu consumi repetidamente, vi, revi, li, reli tudo que eu pude sobre o relógio. Tudo que tinha de disponível na internet, eu fui atrás. Eu queria ter plena certeza em puxar o gatilho, dado que estava no Brasil e fazendo uma compra em outro hemisfério. “Posso falar os números do cartão?”.

E aqui vai o primeiro ponto totalmente fora da curva sem nem ter tocado no relógio. O atendimento do Joel, depois de anos de termos tido nosso primeiro contato, foi o melhor que eu já tive até hoje. E digo isso dentre todas as marcas, dentre todas as compras, em todos os cantos onde já fui. Joel superou as maiores grifes do mundo, inclusive de relógios (pelo menos dos que eu já tive). Com muita autenticidade, muita atenção e um ímpeto raríssimo de querer fazer dar certo e que eu tivesse a peça da melhor forma possível. Foi o ápice do customer service — com um cliente que nunca gastou uma fábula na loja, ou que sequer estava comprando o relógio mais caro da marca —, eu mesmo tento emular esse tratamento no meu âmbito profissional.

Foi a minha compra mais demorada e mais bem pensada até então. Não foi a mais cara, mas foi a que mais me demandou. Preço é uma coisa genuinamente muito subjetiva nesse universo.


No Metal:

O relógio chegou até mim poucas semanas depois com um amigo que, quando recebeu o relógio, me falou: “É o Grand Seiko mais bonito que já vi” — esse rapaz em particular tem uma certa proximidade com o que existe de melhor e mais fino do mundo dos relógios, então escutar isso foi, no mínimo, impactante.

Quando o relógio chegou, em teoria, eu já “sabia” o que esperar. Já tinha visto e lido tudo o que dava, então não era para ter nenhuma surpresa. E realmente não tive no primeiro momento. A coisa tomou um rumo mais profundo alguns dias depois. Depois de olhar aquele relógio cinza de perto em diferentes situações, as coisas começaram a ficar mais intrigantes. É nítida uma sensibilidade japonesa em tudo que a GS faz, mas aqui foi bem, mas bem mais adiante.

Para que eu consiga transmitir isso que disse acima de forma minimamente sensata, vou separar cada elemento do relógio e o que especificamente ali me chamou a atenção. A soma de tudo precisa que as coisas sejam entendidas individualmente, pois de forma simples, um relógio com três ponteiros e sem complicações não vai muito além disso. Em teoria.

Ao primeiro olhar, temos isso aqui

Horas, minutos e segundos…

Objetivamente, temos um relógio time-only. Doze índices, o logo da marca em alto-relevo, Grand Seiko, e embaixo “Spring Drive” escrito em azul às 6 horas.

Não diferente de outros relógios da marca, todas as facetas dos índices são perfeitamente bem acabadas e facetadas. Por não ter lúmen nenhum, o relógio reflete bem cada cantinho de luz que passa por ali. A qualquer momento que você olhar para o dial, os índices nunca estarão da mesma cor. O black-polishing, extremamente bem feito com múltiplas facetas reflexivas, deixa sempre algum ponto de luz em destaque. É notório levantar o pulso e notar um índice brilhando mais do que o outro.

O formato dos índices foi lançado em conjunto com a caixa nova. Particularmente, acho o fato deles serem levemente mais alongados e irem se afinando nas pontas de uma elegância ímpar. Só aqui já começamos a notar uma sensibilidade a mais — o trabalho de acrescentar várias facetas e ângulos a uma parte tão pequena deixa explícito o comprometimento da GS em querer fazer algo bom. Pensar no fato de irem se afunilando, idem. É difícil ver as marcas tradicionais fazendo esse tipo de questão, em especial em um relógio que custe menos que $10.000 USD.

Em paralelo à escrita em azul, temos o anel externo no dial com as marcações de minutos individuais em um marinho bem sutil; por serem bem pequeninas, é exatamente aquele tipo de detalhe que requer um “look closer” à la John Mayer.

Os ponteiros em estilo dauphine são delicados e extremamente interativos com a luz. Os chanfros são muito marcantes, refletem mesmo a luminosidade e, em praticamente qualquer foto, se destacam. Toda vez que olho para o relógio, não me canso de ver os ponteiros com as bordas praticamente acesas de luz. Tradicionalmente, com sua cor atingida por tratamento à base de fogo, o ponteiro dos segundos tem um tom metálico azulado lindo, bem mais fácil de ser visto e extremamente charmoso em complemento ao aspecto mais sóbrio do relógio.

Não obstante todos os detalhes minuciosos e discretos (pelo menos em primeiro plano), o dial em si é o que faz o relógio ser um caso à parte. Existem outras referências com exatamente as mesmas características deste relógio em produção regular. O que diferencia eles dos demais: tom e textura.

Aqui começa uma interação levemente mais aprofundada do que a GS faz nas suas execuções, pois tanto o tom do mostrador quanto sua textura se alteram bastante à medida que são observados em ângulos e iluminações diferentes.

Logo que tive ele em mãos, a melhor forma que eu conseguia explicar a textura para algum amigo era como se fosse uma versão mais leve dos dials dos Datejust vintage conhecidos como “linen dial”. De todo modo, Paulo Cuenca astutamente comentou que lembrava um papiro egípcio. Até hoje, foi a melhor forma de explicar o tipo da textura ali sem uma foto em mãos. É exatamente essa a sensação que temos ao ver esse dial.

Dependendo do ângulo, os “risquinhos” texturizados somem, e vemos apenas uma superfície chapada cinza. Eles somem e aparecem num piscar de olhos. Tenho o relógio há pouco mais de um ano, simplesmente não me canso disso. Toda vez que ponho ele no punho, me pego notando isso. Como referência, a marca denomina esse tipo de textura como “Kira-zuri”, traduzido como pintura brilhante.

O outro ponto, definitivamente não menos importante, é a cor. O tom de cinza usado aqui não é usado em nenhum outro mostrador do catálogo. É um tom cinza, com um leve undertone champagne que dependendo da iluminação, deixa o dial levemente dourado. É uma coisa surreal. A cor reage de forma quase viva à exposição de luz, e isso torna o relógio memorável: em um momento temos algo totalmente sóbrio e em outro, temos algo que traz várias camadas de textura e cor brincando entre si.


A caixa:

Como mencionado antes, a caixa não é nova para o modelo, e, desde que a coloquei pela primeira vez, nunca esqueci o quão confortável e bonita ela de fato é. Em total sinergia com o dial, aqui é mais um ponto onde no primeiro olhar, temos algo simples, até notarmos os detalhes, que novamente são sutis e encantadores por natureza. Em formato de “cushion”, temos as seguintes dimensões:

  • 38.5 mm de diâmetro

  • 10.2 mm de altura

  • 43.7 mm de lug-to-lug (é aqui que a cushion case faz tanta diferença; por ter esse formato peculiar com os lugs curtos, sem serem soldados à caixa, fazem com que o relógio vista maravilhosamente bem no punho)

A caixa segue bem a filosofia da marca, remetendo ao “grammar of design” e introduzindo o toque japonês ao produto final. Um detalhe sutil que eu reparei pela primeira vez em 2019 foi o chanfro na parte de dentro dos lugs. Eu nunca tinha visto isso antes. Notem: em cada lug, no final de cada um, quando vão se fundindo com a caixa, um leve angulado na parte interior. É a isso que me refiro. Esse leve toque, novamente, faz com que pequenos pontos de luz sejam refletidos e dá aquela pitada de tempero a mais em uma caixa que, tradicionalmente, não recebe esse tipo de atenção. A Grand Seiko mostra repetidamente que, literalmente, cada canto foi tratado como igual.

Olhando a lateral, temos uma silhueta que acompanha fielmente a forma arredondada do bezel. A parte exterior da caixa, desde seu início, vai se curvando quase que de forma orgânica — é um detalhe notório desse relógio a quantidade de curvas que vemos. Tudo é muito suave aos olhos. Não temos ângulos fortes e dramáticos, realmente vemos e sentimos que é algo refinado em todos os sentidos. Aqui, a lateral externa é toda escovada, adicionando um tipo extra de acabamento (que eu gosto bastante) e trazendo uma espécie de leveza ao relógio, contrabalanceando um pouco o destaque nas superfícies polidas.

Olhando para o bezel, ele é fino e sucinto, deixando com que o dial seja bem expansivo e muitas vezes confundindo o tamanho do relógio para quem o olha pela primeira vez. Relógios com dials mais evidentes e bezels menores tendem a causar esse efeito. Temos praticamente um disco de aço black-polished levemente angulado, nada muito especial. Porém, algo que só fui notar alguns dias depois de ter o relógio é como ele se comporta com a safira.

É um outro elemento novo em conjunto com a caixa. Esse formato de safira, único até então, é abaulado de uma forma diferente. Novamente, nunca vi nada igual. Ela vai diminuindo nas suas extremidades de forma gradual até chegar no bezel. No centro do relógio ela tem uma altura; no encontro com o bezel, ela está mais fina. A melhor forma que eu consigo descrever isso é como se fosse uma bolha com uma leve indentação. Mas o mais curioso aqui (além disso tudo) é como a caixa, o bezel e a safira se comportam em conjunto:

esse mix faz com que essas partes criem uma espécie de camada entre elas, com 4 pontos nivelados diferentes. Quando eu saquei isso, fiquei em êxtase. Fiquei novamente enquanto escrevo aqui


O Movimento

Em alguns artigos atrás, eu comentei sobre os relógios que eu compraria hoje com 50.000 USD. Um deles, o Credor Eichi II, que, por sinal, tem um movimento com um acabamento sublime e uma arquitetura lindíssima. Para minha sorte, o SBGY023 veio com um movimento que lembra a obra-prima feita pela Credor. O movimento em questão é o 9R31 Spring Drive. Introduzido em 2019, foi uma adição aos demais Spring Drives, com uma arquitetura, acabamento e espessura como novidades.

Reconhecendo o esforço da GS em escutar seu público, o Snowflake é frequentemente criticado por ter sua reserva de marcha aparente no dial. Aqui, para preservar a simetria e estética, esse indicador foi movido para o movimento. Ali, no canto superior direito, tem uma seta azul envolvida por um semicírculo. Ali é a reserva de marcha, particularmente bem útil nesse calibre, pois ele é manual. 72 horas de reserva de marcha e uma precisão de ±15 segundos por mês deixam o pacote ainda melhor.

O que chama a atenção logo de imediato é a placa única que cobre praticamente todo o movimento. Com um acabamento minuciosamente bem escovado, vemos várias linhas verticais reluzindo à medida que mudamos a orientação do nosso olhar. É um contraste forte com o polimento da parte superior da caixa e, regado de pequenos “furos” ao longo da placa toda, fortemente caracterizados pelos chanfros largos. Confesso que gosto muito desse mix de elementos aqui, em especial o toque dos chanfros bem evidentes; é bem interessante ver a luz refletindo ali. Não obstante a isso, os parafusos são todos aquecidos até chegarem no tom de azul que têm, e o logo da marca não é carimbado, mas sim gravado e preenchido com um laqueado azul típico da GS. Isso tudo em forma praticamente de miniatura.

Um belo bônus: conseguimos ver o “glide wheel” do Spring Drive rodando dentro dos círculos da parte inferior. Isso que essencialmente faz o ponteiro dos segundos deslizar pelo dial daquela forma hipnotizante que só a GS consegue. Se somar o tempo que já fiquei observando isso, com certeza já deram algumas horas.

Em relação à mecânica do Spring Drive, isso daria um (aliás, vários) artigos por si só.

“Pense no Spring Drive como um relógio mecânico que ‘pensa’ como um quartzo. A mola principal dá a energia, o trem de engrenagens a transmite, e o Regulador Tri-Synchro (com quartzo, gerador e freio) a controla com precisão absoluta. A GS demorou 28 anos e construiu mais de 600 protótipos para fazerem seu primeiro Spring Drive” — resumo de um artigo publicado no GS9 Club.


O resumo da obra:

Acho que talvez o que mais me fascina é o fato desse relógio poder ser tão simples num primeiro olhar, mas extremamente regado de detalhes quando se olha de perto e por um período mais prolongado. É firmemente impossível alguém perceber tudo que tem aqui por um relance. Passa totalmente despercebido para quem não tem isso como hobby. Em teoria, é só mais um relógio. Na prática, é um exercício singular de algo simples extremamente bem feito.

No espírito do Bond em Casino Royale: “Because once you’ve tasted it, that’s all you want to drink” — e, de certa forma, é assim que interpreto esse relógio.


Um ponto relevante: durante todo o artigo o relógio apareceu em diversas pulseiras diferentes, pois é exatamente assim que eu o uso. Tenho inúmeras pulseiras azuis e cinzas que troco com bastante frequência, em especial nesta peça são as duas cores que mais me agradam, então tenho mesmo o hábito de trocá-las. Ele veio originalmente em uma pulseira de couro de crocodilo cinza escuro, que eu nunca usei. Desde o primeiro momento sempre o coloquei nas que gosto mais.

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