Talk Time: Moon-Phase

Talk Time: Moon-Phase

Talk Time: Moon-Phase

charme vintage com panache moderno, os savoir-faires são belíssimos

charme vintage com panache moderno, os savoir-faires são belíssimos

Paulo Rabelo

Paulo Rabelo

15

15

15

min

min

min

Existem complicações e complicações. Da repetição de minutos às horas, certamente o “device” no qual você está lendo esse artigo faz um trabalho melhor em termos de precisão do que um relógio moderno, mas certamente não ganha no encanto. Logo, aqui estamos.

Desde quando comecei a entender sobre relojoaria eu notava uma certa janelinha nos dials dos relógios que lia sobre, e esse ponto acabou se tornando a complicação que eu acho a mais bela de todas. Quando falamos em “complicação” na relojoaria, isso se refere a alguma função que o relógio tem. Tecnicamente falando, horas são sim uma complicação também, mas assumimos de forma geral que qualquer coisa que vá além de horas, minutos, segundos (e data), seja algo mais apropriado para ser denominado como complicação. Seja um cronógrafo, um GMT ou um split-seconds. Dentre elas, a que talvez eu mais repare e goste são as fases da lua.

A complicação de forma ampla se resume em: exibir as diferentes fases do ciclo lunar, a cada 29 dias e meio (tempo médio de um ciclo). Antigamente era algo relevante para atividades de navegação, pesca e agricultura. Hoje em dia, é basicamente uma forma de poesia mecânica, um canvas para as marcas tomarem liberdades criativas.

O que eu venho reparando ao longo dos anos é o quão notável é o trabalho que algumas marcas vêm fazendo nesse ímpeto — inclusive duas marcas na última década fizeram as moon-phases que considero as mais elegantes e refinadas da atualidade. Execuções que eu tranquilamente chamaria de belíssimas. Em contrapartida, uma certa Suíça me deixa um pouco, digamos, desanimado. Na sequência vou mostrar alguns exemplos do que eu considero os trabalhos mais primorosos da atualidade, e na sequência dois deep-dives repletos dos detalhes mais minuciosos.


Belezuras em todos os cantos:

F.P.Journe

De alguns anos para cá, a Journe trocou a lua tradicional por uma versão hiper-realista da mesma. Antigamente, a lua era feita de ouro 18K, e atualmente é feita em cristal de safira, sendo assim o material base para que a lua possa ser aplicada ali. Isso cria a possibilidade de uma lua incrivelmente detalhada, ao ponto da imagem utilizada ter sido feita com fotos da própria NASA, mostrando as crateras e os sombreados de alguns cantinhos da lua. A versão antiga era mais romântica, a versão atual é mais intrigante.

@gmt_italy

Em volta da lua temos diversas estrelas dispersas, isso não é nada novo, mas gosto particularmente do formato delas e dos tamanhos diferentes. O fundo nesse tom azul profundamente bonito é feito em safira também, porém em um tom bem distinto à la FPJ. O tom levemente translúcido traz uma dimensionalidade bem interessante para a complicação.

@gmt_italy

NAOYA HIDA & CO. — NH Type 3B

Uma pequena marca independente japonesa, francamente dá um show na execução de suas respectivas moon-phases. Com uma produção de aproximadamente 100 peças por ano, o cuidado com o artesanato é algo muito, mas muito notável. Desde que vi o NH TYPE 3 (por fotos), imediatamente eu reparei no disco da lua. Em duas versões, o TYPE 3B e o Type 3B-3, existem algumas nuances entre as irmãs.

TYPE 3B - Aço:

@naoya_hida_co.official

Enquanto a lua e o restante do disco ocupam o mesmo plano, eles são feitos em etapas diferentes e separadamente. Ambos feitos em ouro amarelo 18K, e a parte mais fenomenal se dá na construção da obra: tanto o disco com as estrelas quanto a própria lua são minuciosamente esculpidos à mão por um artesão. Um processo longo e extremamente delicado, pois qualquer erro faz com que voltem à estaca zero.

TYPE 3B-1 - Ouro:

Assim como a versão em aço, a lua segue sendo esculpida à mão, mas a parte de trás é um disco feito todo em lápis-lazúli. Sem nenhuma surpresa, adorei esse detalhe. Sigo totalmente fã de pedraria e acho que sempre adicionam uma camada de charme e sofisticação ímpares para qualquer peça — um céu feito nesse estilo foi realmente algo muito lindo de se ver.

@hodinkee

Cada lua tem sua própria microexpressão, nenhuma será totalmente igual. São feitas aproximadamente por ano 10 peças em aço e 5 peças em ouro.

ARNOLD & SONS — LUNA MAGNA

Muito provavelmente a execução mais interessante de todas. A lua aqui é sem dúvidas a protagonista do show, não só pela ênfase natural com seus 12mm de diâmetro, mas pelo fato dela ser 3D!

@arnoldandson

Logo quando vi uma foto desse relógio pela primeira vez, fiquei extremamente intrigado, pois a execução disso não deve ser nada fácil. Em particular, não só pela surpresa em ver algo tridimensional, mas por notar a diferença de materiais que compõem essa lua tão bonita. Metade em mármore branco e metade em aventurina azul, o mix ficou impecável. Traduzindo literalmente o lado iluminado e o lado escuro lunar, ela vai girando no eixo vertical à medida que as fases vão se passando.

No caseback, continuamos vendo a outra metade que fica exposta no dial. Outro ponto que ainda não tinha visto em outras execuções — além do movimento ser extremamente bonito e bem acabado também, a lua não tem nenhuma “escapatória” — fazendo com que o nível de escrutínio nos detalhes seja altíssimo. É literalmente um alinhamento submilimétrico para que ambas as partes se encaixem perfeitamente.


Deep-Dives:

A. Lange & Söhne - LANGE 1 MOON PHASE

Praticamente um caso de amor à primeira vista, pois assim que vi esse relógio eu estava na faculdade e nunca mais me esqueci dele. Que eu tenho um viés e uma predileção explícita pela ALS é evidente, dito isso, é justamente por conta de detalhes feitos esses aqui que fazem com que meu apreço pela marca seja tão forte.

Em 2017 a Lange introduziu um update ao L1 MOON PHASE que, na minha opinião, fez com que a marca novamente se mostrasse plenamente capaz de executar o tradicional de forma proprietária e com muita, mas muita sofisticação e elegância. Além do calibre novo, o que chamou minha atenção desde o primeiro segundo foi justamente a abertura das fases da lua no canto direito. Não só pelo tom de azul vibrante e a lua reluzente, mas sim pela quantidade de estrelinhas.

@kenneth_leathers

Aqui o approach germânico se dá em alguns níveis diferentes, pois o disco azulado com as estrelas e a lua em si são elementos separados, mas que compõem em conjunto a complicação como um todo.

  • Disco lunar: feito separadamente, aqui temos as duas pequenas luas que são exibidas e se movem para mostrar o crescimento e a diminuição de cada fase, ambas as luas são feitas em ouro maciço — super bem polidas.

  • Disco celestial: também feito em ouro maciço, é justamente nele onde temos uma diferenciação muito notável. Feito com um tratamento patenteado pela marca, cria-se um mix de tons azulados que, sinceramente falando, é o mais bonito que já vi nesse tipo de situação. O tom vai mudando de um azul vibrante até um azul “meia-noite” escuro, e enquanto essa transição vai acontecendo de forma extremamente orgânica e suave, as pequenas estrelas vão aparecendo.

Aqui ainda ganhamos uma função extra: indicador dia/noite. A mudança na tonalidade e com a chegada das estrelas indica, invariavelmente, se estamos falando de um horário de dia ou de noite.

@hodinkee - notem que a lua se manteve praticamente intacta, enquanto o céu mudou por completo. É justamente aqui que vemos o indicador de dia/noite ganhando corpo)

Enquanto a lua se move no seu próprio ritmo para refletir sua fase, o “céu” trabalha de forma independente, pois as partes não são feitas no mesmo plano como de costume (logo darei um exemplo disso mais detalhado também). À medida que a noite vai se aproximando, vamos vendo um total de 383 estrelas entrando em cena. Com diversos tamanhos e formas diferentes, temos um verdadeiro show de uma miniconstelação aqui. É extremamente notável o cuidado que a companhia teve em criar múltiplos efeitos para um janela tão pequena do relógio. 

@alangesohne - um outro ponto bem especial, repartem como os parafusos que ficam de baixo do disco são azulados, no mesmo padrão dos demais que ficam visíveis. Em teoria, ninguém verá isso mas mesmo assim eles fazem questão de manter o padrão elevado de forma universal 

Essas estrelas são milimetricamente gravadas por laser, com um refinamento visual totalmente inédito, pois a quantidade de detalhes é extraordinária. Dos tons azulados ao quão meticuloso foi o espaçamento e placement de cada estrela, essa separação cria um efeito 3D muito intrigante e prazeroso aos olhos, ele praticamente te convida para olhar uma, duas, três vezes e por aí vai. Sempre vai ter uma estrelinha a mais para ser notada.

A lua separada do disco celestial, os tons azuis e a constelação de estrelas juntas fazem um conjunto exuberantemente memorável. São vários microcontrastes envolvidos que geram um aspecto tridimensional muito charmoso. Quanto mais penso sobre isso, a conclusão a que eu chego é que por mais que essa execução seja extremamente moderna por natureza — sem o uso de técnicas tradicionais —, a classe e cuidado em todos os âmbitos ainda conseguem deixar o relógio com uma forte presença atemporal. Uma forma muito proprietária de evoluir uma complicação centenária com muita autoridade e bom-gosto.

A título de curiosidade, esse mesmo molde é usado em outros relógios da marca também, um deles ainda conseguiu elevar o nível de modernidade ainda mais.

@langestation_sh
Dentre todos os nomes que mencionei até agora, uma maison suíça tradicional ficou de fora, explico:

Patek Philippe

Quase como uma segunda natureza, reparar as fases da lua é algo quase involuntário para mim a essa altura. Por ser algo que a PP faz há pelo menos meio século, são vários aspectos que podem ser notados ao longo desse tempo, desde a linguagem de design até os materiais usados. Quando falamos da Patek, é quase impossível separar o moderno do vintage, pois é característico da marca manter elementos que se tornaram clássicos, justamente por essa constância nas execuções. Com isso em mente, meu foco primário aqui será nas referências modernas, mas certamente trarei o aspecto vintage para entendermos melhor alguns pontos.

O que eu achei bastante curioso sobre as moon-phases é que elas praticamente se mantêm iguais em várias faixas de preço diferentes. Antes de mais nada, existe sim uma quebra no que a PP faz no quesito fases da lua e complicações celestiais:

  • Algumas referências do catálogo atual englobam: execução astronômica de alta precisão, integrando a órbita elíptica da lua, e sua posição relativa em um mapa celeste do hemisfério norte.

  • Essas Grand Complication incluem as referências (em suas respectivas variações de dials e metais): Ref. 6102 Celestial, Ref. 6104 Celestial Moon Age e o 6002R Sky Moon Tourbillon.

Essas referências vão muito além de uma fase da lua normal — o empenho aqui é para executar algo que realmente seja astronomicamente mais complexo, achei importante por motivos óbvios mencioná-las, mas por ora, elas abrangem um escopo muito mais amplo do que estamos focando.

O preço base para a referência mais simples acima larga em USD 370.000 — aqui os processos de produção são amplamente manuais e demorados, usando grand feu champlevé e ouro maciço nos demais detalhes. Isso é o pináculo que a marca faz em uma produção genuinamente escassa. São dígitos singulares feitos por ano.

O que me deixa curioso é quando foco na parte relativamente mais acessível do catálogo.

@europeanwatchco - ref. 5905R

Um fato notório sobre a Patek é que o acabamento dos movimentos varia de acordo com o preço: quanto mais cara uma peça, mais bem acabado é o movimento que você leva. Pelo que entendi, no quesito moon phase, esse detalhe não tem uma diferença muito tangível.

@europeanwatchco - Cubitus perpétuo & ref. 5270R

As três referências acima, apesar de terem uma discrepância grande no preço — o 5205R em torno de USD 60.000 até o 5270R approx USD 250.000 —, têm acabamentos notoriamente diferentes nos movimentos, mas as fases da lua são as mesmas. Feitas com as mesmas técnicas, da mesmíssima forma. Antes de falar sobre a aparência física dessa janelinha, o processo de produção é no mínimo curioso:

  • O disco onde as luas e as estrelas ficam é feito de cristal de safira (corundum).

  • A cor azul (tom único) não é laca nem enamel. A coloração é feita por um tratamento proprietário da companhia.

  • As estrelas e a lua são feitas usando um processo de vaporização. O famoso “physical vapor deposition”, mais conhecido como PVD. Ou seja, não são feitas em ouro maciço.

E é justamente nessa construção moderna que a coisa pega (para mim). Com isso, essencialmente, temos um disco extremamente chapado e praticamente sem brilho. O estilo “frosted” de acabamento se mantém nas estrelas e na lua, o que faz com que esses elementos tenham menos diferenciação ainda entre si.

Olhando de perto:

@Hodinkee & @ablogtowatch - PP ref. 5396G

A Lange faz 383 estrelas, a Patek faz 6. Sim, meia dúzia. Duas maiores e quatro menores. A diferença nas execuções é muito grande, por uma questão de gosto, acho a alemã infinitamente mais bonita, mas isso é subjetivo. O que não é subjetivo é o fato da construção da mesma ser substancialmente mais complexa e englobar múltiplos elementos que realçam vividamente a complicação. Aqui temos duas peças modernas (ambas nos catálogos atuais das marcas), com métodos de produção modernos também, mas resultados amplamente diferentes.

@a.dose.of.time - sigam, ela não brinca em serviço

Aproveitando o ponto referencial no qual foi a virada de chave para a Patek aderir a esses métodos novos de produção, na foto temos uma ref. 3970 (a mesma do artigo anterior na Amsterdam Vintage Watches) — porém aqui ela é em ouro branco, e com ponteiros em folha. Muito provavelmente ela seja meu grail Patek. Por volta da produção dessa referência, a PP começou a aderir ao processo de produção novo:

  • Basicamente substituindo o disco lunar (feito em brass ou ouro nas referências anteriores) pelo disco de safira, e com isso eliminando também o processo de enameling.

  • As estrelas e a lua não mais são desenhadas e feitas à mão, e a lua também deixou de ser feita em ouro maciço — isso de forma gradual, é normal vermos algumas variações entre uma geração e outra e entre modelos também.

  • fato curioso: podem notar que esse relógio é feito em ouro branco, mas a lua e as estrelas são amarelas. A partir desse ponto em diante também começamos a ver a marca combinando o tom da caixa com o tom da lua e das estrelas, deixando o design mais congruente. Nesse caso em específico, eu adoro o contraste que a luazinha amarela tem contra o tom frio do metal, mas puramente gosto pessoal.

Dito isso, é aqui que noto também que grande parte do charme dos vintages foi se perdendo. A uniformização do processo acabou eliminando vários materiais que deixavam as peças com um charme a mais muito notável, pois quem já viu um Patek vintage com uma fase da lua em enamel sabe bem do que eu estou falando. As cores eram mais vivas, as formas mais orgânicas. O conjunto como um todo tinha um aspecto como se fosse uma pintura em miniatura, tinha sim um senso artesanal e artístico a mais.


Indo ainda mais a fundo no ponto da segregação entre os acabamentos em price points diferentes, esse caso abaixo para mim talvez seja o mais emblemático:

ref. 5372P

@europeanwatchco

Aqui eu vejo um movimento com uma execução praticamente irretocável, não vejo a menor falta de esforço, muito pelo contrário: múltiplos chatons de ouro (dificílimo de ser visto em outras referências), anglage farta, mix de polimentos, múltiplos ângulos internos(!) e quinas arrebitadas nas pontes. Realmente é um espetáculo de movimento.

Daí quando viramos o relógio:

Temos uma fase da lua completamente inexpressiva e feita de uma forma infinitamente menos elaborada que o coração mecânico do relógio. Eu não concordo muito com a filosofia da marca de não terem o mesmo acabamento envolto em todas as peças, e entendo menos ainda como olharam para um split-second (com esse movimento espetacular) e acharam que o mesmo layout da fase da lua de 1950, com uma técnica de execução mais barata e menos complexa, estava bom o suficiente. Imagino que a PP não faça um trabalho mais elaborado porque não quer, ou melhor, porque não deve ser economicamente viável.


O que foi impossível não ser notado em conjunto com os exemplos que dei mais acima foi o fato de que a FPJ optou por uma fase da lua extremamente moderna com os mesmos materiais da Patek (safira), mas sem abrir mão do cuidado da originalidade, pois o tom azulado do céu e o formato das estrelas são bastante distintos. Trazem um dinamismo visual muito bonito e interativo de certa forma.

O outro fato da ALS ter escolhido um caminho integralmente moderno também, mas com uma atemporalidade viva e elegante — elevando o estilo de construção e fundamentalmente criando sua própria versão da coisa. A PP de forma ampla não replica nenhum atributo dessas companhias, pelo menos não no mesmo nível. Tanto a FPJ quanto a ALS usam elementos similares aos da Patek em suas respectivas produções, mas me parece que ficaram parados no tempo de certa forma. O layout cansado das estrelas, que por mais que eu entenda e seja a favor de continuidade em linguagem de design, precisava de um sopro de vida extra.

Sinto um pouco de falta de movimento e espontaneidade. De savoir-faire.

Existem complicações e complicações. Da repetição de minutos às horas, certamente o “device” no qual você está lendo esse artigo faz um trabalho melhor em termos de precisão do que um relógio moderno, mas certamente não ganha no encanto. Logo, aqui estamos.

Desde quando comecei a entender sobre relojoaria eu notava uma certa janelinha nos dials dos relógios que lia sobre, e esse ponto acabou se tornando a complicação que eu acho a mais bela de todas. Quando falamos em “complicação” na relojoaria, isso se refere a alguma função que o relógio tem. Tecnicamente falando, horas são sim uma complicação também, mas assumimos de forma geral que qualquer coisa que vá além de horas, minutos, segundos (e data), seja algo mais apropriado para ser denominado como complicação. Seja um cronógrafo, um GMT ou um split-seconds. Dentre elas, a que talvez eu mais repare e goste são as fases da lua.

A complicação de forma ampla se resume em: exibir as diferentes fases do ciclo lunar, a cada 29 dias e meio (tempo médio de um ciclo). Antigamente era algo relevante para atividades de navegação, pesca e agricultura. Hoje em dia, é basicamente uma forma de poesia mecânica, um canvas para as marcas tomarem liberdades criativas.

O que eu venho reparando ao longo dos anos é o quão notável é o trabalho que algumas marcas vêm fazendo nesse ímpeto — inclusive duas marcas na última década fizeram as moon-phases que considero as mais elegantes e refinadas da atualidade. Execuções que eu tranquilamente chamaria de belíssimas. Em contrapartida, uma certa Suíça me deixa um pouco, digamos, desanimado. Na sequência vou mostrar alguns exemplos do que eu considero os trabalhos mais primorosos da atualidade, e na sequência dois deep-dives repletos dos detalhes mais minuciosos.


Belezuras em todos os cantos:

F.P.Journe

De alguns anos para cá, a Journe trocou a lua tradicional por uma versão hiper-realista da mesma. Antigamente, a lua era feita de ouro 18K, e atualmente é feita em cristal de safira, sendo assim o material base para que a lua possa ser aplicada ali. Isso cria a possibilidade de uma lua incrivelmente detalhada, ao ponto da imagem utilizada ter sido feita com fotos da própria NASA, mostrando as crateras e os sombreados de alguns cantinhos da lua. A versão antiga era mais romântica, a versão atual é mais intrigante.

@gmt_italy

Em volta da lua temos diversas estrelas dispersas, isso não é nada novo, mas gosto particularmente do formato delas e dos tamanhos diferentes. O fundo nesse tom azul profundamente bonito é feito em safira também, porém em um tom bem distinto à la FPJ. O tom levemente translúcido traz uma dimensionalidade bem interessante para a complicação.

@gmt_italy

NAOYA HIDA & CO. — NH Type 3B

Uma pequena marca independente japonesa, francamente dá um show na execução de suas respectivas moon-phases. Com uma produção de aproximadamente 100 peças por ano, o cuidado com o artesanato é algo muito, mas muito notável. Desde que vi o NH TYPE 3 (por fotos), imediatamente eu reparei no disco da lua. Em duas versões, o TYPE 3B e o Type 3B-3, existem algumas nuances entre as irmãs.

TYPE 3B - Aço:

@naoya_hida_co.official

Enquanto a lua e o restante do disco ocupam o mesmo plano, eles são feitos em etapas diferentes e separadamente. Ambos feitos em ouro amarelo 18K, e a parte mais fenomenal se dá na construção da obra: tanto o disco com as estrelas quanto a própria lua são minuciosamente esculpidos à mão por um artesão. Um processo longo e extremamente delicado, pois qualquer erro faz com que voltem à estaca zero.

TYPE 3B-1 - Ouro:

Assim como a versão em aço, a lua segue sendo esculpida à mão, mas a parte de trás é um disco feito todo em lápis-lazúli. Sem nenhuma surpresa, adorei esse detalhe. Sigo totalmente fã de pedraria e acho que sempre adicionam uma camada de charme e sofisticação ímpares para qualquer peça — um céu feito nesse estilo foi realmente algo muito lindo de se ver.

@hodinkee

Cada lua tem sua própria microexpressão, nenhuma será totalmente igual. São feitas aproximadamente por ano 10 peças em aço e 5 peças em ouro.

ARNOLD & SONS — LUNA MAGNA

Muito provavelmente a execução mais interessante de todas. A lua aqui é sem dúvidas a protagonista do show, não só pela ênfase natural com seus 12mm de diâmetro, mas pelo fato dela ser 3D!

@arnoldandson

Logo quando vi uma foto desse relógio pela primeira vez, fiquei extremamente intrigado, pois a execução disso não deve ser nada fácil. Em particular, não só pela surpresa em ver algo tridimensional, mas por notar a diferença de materiais que compõem essa lua tão bonita. Metade em mármore branco e metade em aventurina azul, o mix ficou impecável. Traduzindo literalmente o lado iluminado e o lado escuro lunar, ela vai girando no eixo vertical à medida que as fases vão se passando.

No caseback, continuamos vendo a outra metade que fica exposta no dial. Outro ponto que ainda não tinha visto em outras execuções — além do movimento ser extremamente bonito e bem acabado também, a lua não tem nenhuma “escapatória” — fazendo com que o nível de escrutínio nos detalhes seja altíssimo. É literalmente um alinhamento submilimétrico para que ambas as partes se encaixem perfeitamente.


Deep-Dives:

A. Lange & Söhne - LANGE 1 MOON PHASE

Praticamente um caso de amor à primeira vista, pois assim que vi esse relógio eu estava na faculdade e nunca mais me esqueci dele. Que eu tenho um viés e uma predileção explícita pela ALS é evidente, dito isso, é justamente por conta de detalhes feitos esses aqui que fazem com que meu apreço pela marca seja tão forte.

Em 2017 a Lange introduziu um update ao L1 MOON PHASE que, na minha opinião, fez com que a marca novamente se mostrasse plenamente capaz de executar o tradicional de forma proprietária e com muita, mas muita sofisticação e elegância. Além do calibre novo, o que chamou minha atenção desde o primeiro segundo foi justamente a abertura das fases da lua no canto direito. Não só pelo tom de azul vibrante e a lua reluzente, mas sim pela quantidade de estrelinhas.

@kenneth_leathers

Aqui o approach germânico se dá em alguns níveis diferentes, pois o disco azulado com as estrelas e a lua em si são elementos separados, mas que compõem em conjunto a complicação como um todo.

  • Disco lunar: feito separadamente, aqui temos as duas pequenas luas que são exibidas e se movem para mostrar o crescimento e a diminuição de cada fase, ambas as luas são feitas em ouro maciço — super bem polidas.

  • Disco celestial: também feito em ouro maciço, é justamente nele onde temos uma diferenciação muito notável. Feito com um tratamento patenteado pela marca, cria-se um mix de tons azulados que, sinceramente falando, é o mais bonito que já vi nesse tipo de situação. O tom vai mudando de um azul vibrante até um azul “meia-noite” escuro, e enquanto essa transição vai acontecendo de forma extremamente orgânica e suave, as pequenas estrelas vão aparecendo.

Aqui ainda ganhamos uma função extra: indicador dia/noite. A mudança na tonalidade e com a chegada das estrelas indica, invariavelmente, se estamos falando de um horário de dia ou de noite.

@hodinkee - notem que a lua se manteve praticamente intacta, enquanto o céu mudou por completo. É justamente aqui que vemos o indicador de dia/noite ganhando corpo)

Enquanto a lua se move no seu próprio ritmo para refletir sua fase, o “céu” trabalha de forma independente, pois as partes não são feitas no mesmo plano como de costume (logo darei um exemplo disso mais detalhado também). À medida que a noite vai se aproximando, vamos vendo um total de 383 estrelas entrando em cena. Com diversos tamanhos e formas diferentes, temos um verdadeiro show de uma miniconstelação aqui. É extremamente notável o cuidado que a companhia teve em criar múltiplos efeitos para um janela tão pequena do relógio. 

@alangesohne - um outro ponto bem especial, repartem como os parafusos que ficam de baixo do disco são azulados, no mesmo padrão dos demais que ficam visíveis. Em teoria, ninguém verá isso mas mesmo assim eles fazem questão de manter o padrão elevado de forma universal 

Essas estrelas são milimetricamente gravadas por laser, com um refinamento visual totalmente inédito, pois a quantidade de detalhes é extraordinária. Dos tons azulados ao quão meticuloso foi o espaçamento e placement de cada estrela, essa separação cria um efeito 3D muito intrigante e prazeroso aos olhos, ele praticamente te convida para olhar uma, duas, três vezes e por aí vai. Sempre vai ter uma estrelinha a mais para ser notada.

A lua separada do disco celestial, os tons azuis e a constelação de estrelas juntas fazem um conjunto exuberantemente memorável. São vários microcontrastes envolvidos que geram um aspecto tridimensional muito charmoso. Quanto mais penso sobre isso, a conclusão a que eu chego é que por mais que essa execução seja extremamente moderna por natureza — sem o uso de técnicas tradicionais —, a classe e cuidado em todos os âmbitos ainda conseguem deixar o relógio com uma forte presença atemporal. Uma forma muito proprietária de evoluir uma complicação centenária com muita autoridade e bom-gosto.

A título de curiosidade, esse mesmo molde é usado em outros relógios da marca também, um deles ainda conseguiu elevar o nível de modernidade ainda mais.

@langestation_sh
Dentre todos os nomes que mencionei até agora, uma maison suíça tradicional ficou de fora, explico:

Patek Philippe

Quase como uma segunda natureza, reparar as fases da lua é algo quase involuntário para mim a essa altura. Por ser algo que a PP faz há pelo menos meio século, são vários aspectos que podem ser notados ao longo desse tempo, desde a linguagem de design até os materiais usados. Quando falamos da Patek, é quase impossível separar o moderno do vintage, pois é característico da marca manter elementos que se tornaram clássicos, justamente por essa constância nas execuções. Com isso em mente, meu foco primário aqui será nas referências modernas, mas certamente trarei o aspecto vintage para entendermos melhor alguns pontos.

O que eu achei bastante curioso sobre as moon-phases é que elas praticamente se mantêm iguais em várias faixas de preço diferentes. Antes de mais nada, existe sim uma quebra no que a PP faz no quesito fases da lua e complicações celestiais:

  • Algumas referências do catálogo atual englobam: execução astronômica de alta precisão, integrando a órbita elíptica da lua, e sua posição relativa em um mapa celeste do hemisfério norte.

  • Essas Grand Complication incluem as referências (em suas respectivas variações de dials e metais): Ref. 6102 Celestial, Ref. 6104 Celestial Moon Age e o 6002R Sky Moon Tourbillon.

Essas referências vão muito além de uma fase da lua normal — o empenho aqui é para executar algo que realmente seja astronomicamente mais complexo, achei importante por motivos óbvios mencioná-las, mas por ora, elas abrangem um escopo muito mais amplo do que estamos focando.

O preço base para a referência mais simples acima larga em USD 370.000 — aqui os processos de produção são amplamente manuais e demorados, usando grand feu champlevé e ouro maciço nos demais detalhes. Isso é o pináculo que a marca faz em uma produção genuinamente escassa. São dígitos singulares feitos por ano.

O que me deixa curioso é quando foco na parte relativamente mais acessível do catálogo.

@europeanwatchco - ref. 5905R

Um fato notório sobre a Patek é que o acabamento dos movimentos varia de acordo com o preço: quanto mais cara uma peça, mais bem acabado é o movimento que você leva. Pelo que entendi, no quesito moon phase, esse detalhe não tem uma diferença muito tangível.

@europeanwatchco - Cubitus perpétuo & ref. 5270R

As três referências acima, apesar de terem uma discrepância grande no preço — o 5205R em torno de USD 60.000 até o 5270R approx USD 250.000 —, têm acabamentos notoriamente diferentes nos movimentos, mas as fases da lua são as mesmas. Feitas com as mesmas técnicas, da mesmíssima forma. Antes de falar sobre a aparência física dessa janelinha, o processo de produção é no mínimo curioso:

  • O disco onde as luas e as estrelas ficam é feito de cristal de safira (corundum).

  • A cor azul (tom único) não é laca nem enamel. A coloração é feita por um tratamento proprietário da companhia.

  • As estrelas e a lua são feitas usando um processo de vaporização. O famoso “physical vapor deposition”, mais conhecido como PVD. Ou seja, não são feitas em ouro maciço.

E é justamente nessa construção moderna que a coisa pega (para mim). Com isso, essencialmente, temos um disco extremamente chapado e praticamente sem brilho. O estilo “frosted” de acabamento se mantém nas estrelas e na lua, o que faz com que esses elementos tenham menos diferenciação ainda entre si.

Olhando de perto:

@Hodinkee & @ablogtowatch - PP ref. 5396G

A Lange faz 383 estrelas, a Patek faz 6. Sim, meia dúzia. Duas maiores e quatro menores. A diferença nas execuções é muito grande, por uma questão de gosto, acho a alemã infinitamente mais bonita, mas isso é subjetivo. O que não é subjetivo é o fato da construção da mesma ser substancialmente mais complexa e englobar múltiplos elementos que realçam vividamente a complicação. Aqui temos duas peças modernas (ambas nos catálogos atuais das marcas), com métodos de produção modernos também, mas resultados amplamente diferentes.

@a.dose.of.time - sigam, ela não brinca em serviço

Aproveitando o ponto referencial no qual foi a virada de chave para a Patek aderir a esses métodos novos de produção, na foto temos uma ref. 3970 (a mesma do artigo anterior na Amsterdam Vintage Watches) — porém aqui ela é em ouro branco, e com ponteiros em folha. Muito provavelmente ela seja meu grail Patek. Por volta da produção dessa referência, a PP começou a aderir ao processo de produção novo:

  • Basicamente substituindo o disco lunar (feito em brass ou ouro nas referências anteriores) pelo disco de safira, e com isso eliminando também o processo de enameling.

  • As estrelas e a lua não mais são desenhadas e feitas à mão, e a lua também deixou de ser feita em ouro maciço — isso de forma gradual, é normal vermos algumas variações entre uma geração e outra e entre modelos também.

  • fato curioso: podem notar que esse relógio é feito em ouro branco, mas a lua e as estrelas são amarelas. A partir desse ponto em diante também começamos a ver a marca combinando o tom da caixa com o tom da lua e das estrelas, deixando o design mais congruente. Nesse caso em específico, eu adoro o contraste que a luazinha amarela tem contra o tom frio do metal, mas puramente gosto pessoal.

Dito isso, é aqui que noto também que grande parte do charme dos vintages foi se perdendo. A uniformização do processo acabou eliminando vários materiais que deixavam as peças com um charme a mais muito notável, pois quem já viu um Patek vintage com uma fase da lua em enamel sabe bem do que eu estou falando. As cores eram mais vivas, as formas mais orgânicas. O conjunto como um todo tinha um aspecto como se fosse uma pintura em miniatura, tinha sim um senso artesanal e artístico a mais.


Indo ainda mais a fundo no ponto da segregação entre os acabamentos em price points diferentes, esse caso abaixo para mim talvez seja o mais emblemático:

ref. 5372P

@europeanwatchco

Aqui eu vejo um movimento com uma execução praticamente irretocável, não vejo a menor falta de esforço, muito pelo contrário: múltiplos chatons de ouro (dificílimo de ser visto em outras referências), anglage farta, mix de polimentos, múltiplos ângulos internos(!) e quinas arrebitadas nas pontes. Realmente é um espetáculo de movimento.

Daí quando viramos o relógio:

Temos uma fase da lua completamente inexpressiva e feita de uma forma infinitamente menos elaborada que o coração mecânico do relógio. Eu não concordo muito com a filosofia da marca de não terem o mesmo acabamento envolto em todas as peças, e entendo menos ainda como olharam para um split-second (com esse movimento espetacular) e acharam que o mesmo layout da fase da lua de 1950, com uma técnica de execução mais barata e menos complexa, estava bom o suficiente. Imagino que a PP não faça um trabalho mais elaborado porque não quer, ou melhor, porque não deve ser economicamente viável.


O que foi impossível não ser notado em conjunto com os exemplos que dei mais acima foi o fato de que a FPJ optou por uma fase da lua extremamente moderna com os mesmos materiais da Patek (safira), mas sem abrir mão do cuidado da originalidade, pois o tom azulado do céu e o formato das estrelas são bastante distintos. Trazem um dinamismo visual muito bonito e interativo de certa forma.

O outro fato da ALS ter escolhido um caminho integralmente moderno também, mas com uma atemporalidade viva e elegante — elevando o estilo de construção e fundamentalmente criando sua própria versão da coisa. A PP de forma ampla não replica nenhum atributo dessas companhias, pelo menos não no mesmo nível. Tanto a FPJ quanto a ALS usam elementos similares aos da Patek em suas respectivas produções, mas me parece que ficaram parados no tempo de certa forma. O layout cansado das estrelas, que por mais que eu entenda e seja a favor de continuidade em linguagem de design, precisava de um sopro de vida extra.

Sinto um pouco de falta de movimento e espontaneidade. De savoir-faire.

continue sua leitura

CONTINUE SUA LEITURA

© 2026 Chronolab. Todos os direitos reservados.

© 2026 Chronolab. Todos os direitos reservados.

© 2026 Chronolab. Todos os direitos reservados.