”Qual relógio eu compro?”

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”Qual relógio eu compro?”

inúmeras variáveis para um resposta só…

inúmeras variáveis para um resposta só…

Paulo Rabelo

Paulo Rabelo

14

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min

min

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É uma pergunta que eu recebo com uma certa frequência e a minha reação é sempre a mesma. Não faço ideia.

Por mais simples que a "dúvida" seja, além da responsabilidade de indicar algo para alguém que confia em mim, aquilo que eu tenho afeição e o que a pessoa do outro lado da mesa prioriza muitas vezes são opostos. O que efetivamente deixa essa dúvida potente é o fato do caminho até uma resposta poder ser inteiramente racional ou emocional. Quando essa pergunta vem de alguém mais versado no hobby, geralmente o que ele busca é algo que combine o cérebro com o coração em medidas praticamente iguais. É dificílimo.

O que eu acho curioso é que no ímpeto que comentei acima de querermos algo que combine razão e emoção, algumas tomadas de decisões são mais peculiares que outras. Já vi relógios serem comprados por espontaneidade pura e já vi também planilhas de excel serem desenvolvidas para qualificar o processo. Com gráficos e tudo. Cada um tem seu estilo e quando eu vejo essa situação na qual legitimamente existe uma fórmula estruturada para decidir o caminho, a conclusão que eu tiro disso é que queremos algo que nos mova, e que nos coloque perto daquilo que é mais importante para nós dentro da relojoaria.

Isso é vago e muda com o tempo. Não deixa de ser peculiarmente instigante. Por saber justamente que existe tanta complexidade numa resposta que precisa ser plena, ou o mais próxima disso, quando eu vejo as inúmeras recomendações hoje em dia e escuto "compra um speedy porque toda coleção precisa ter um" seria mais fácil filmar minha expressão facial do que eu tentar descrevê-la aqui.

A resposta mais interessante, imagino eu, será um relógio que te cative com longevidade. Acho que grande parte do esforço se dá na capacidade de filtrar algo que toda vez que seja visto, cause um leve frio na barriga e uma emoção que era mais fácil ser sentida nos anos mais jovens da vida. É muito mais simples se encantar por um relógio recém adquirido — muitas vezes pelo simples fato daquilo ser uma novidade — enquanto é muito mais complexo conseguir isso com algo familiar.

Familiaridade não quer dizer tédio e novidade não quer dizer emoção. Os relógios que eu mais gosto de recomendar são aqueles que eu consigo imaginar a pessoa abrindo a caixa e querendo colocá-lo no punho, sem que o fascínio se dissipe. O que surge nesse caminho muitas vezes é uma vontade de conversar com alguém justamente para clarear as ideias.


Eis a dúvida

Meu último caso acredito que tenha sido um exemplo particularmente interessante desse tipo de situação, conversei com um amigo próximo sobre o que eu recomendaria que fosse sua próxima aquisição. Existem algumas nuances importantes nesse caso, duas em especial:

  • Eu conheço os gostos do XH, sei o que ele valoriza e o que não é prioridade, e relevantemente, a evolução do seu gosto ao longo deste ano.

  • As últimas peças adquiridas por ele são de alto nível, não somente em valor financeiro mas em substância horológica. Acho relevante manter esse direcionamento.

O que isso me possibilitou efetivamente foi filtrar de forma muito mais rápida e direcionada o que faria sentido e o que poderia ser descartado. Não seria muito produtivo que eu recomendasse um MB&F calendário perpétuo e nem alguma variante do Nautilus. Tínhamos um equilíbrio específico para achar ali.

dito isso, que coisa belíssima | @paulocuenca

Com um budget de USD 150'000, a minha ideia era concentrar todas as fichas em uma peça só, ao invés de buscar algumas. Por dois motivos, o primeiro deles sendo o fato de outras peças incríveis e adicionadas recentemente comporem o acervo do XH, e o segundo por uma predileção minha de que uma peça certa vale mais que algumas que não "chegam exatamente lá". Dada a seleção na foto abaixo, acho que o momento atual dele como colecionador já entrega bastante estímulo em diversas frentes.

Especificamente aqui acho que mais volume diluiria a intencionalidade de uso de cada peça, e ia acabar virando um caso de "mais é mais" só por ser. Logo no início, eu me propus a pensar em um relógio que pudesse agregar de forma singular ao mix:

@justhaacking

Sem uma planilha de excel aberta e sem enviar foto do último relógio que eu tenho salvo na minha galeria, eu me ative aos seguintes pontos:

  • Fases da lua são bem-vindas

  • Marcas com pedigree mas que tenham um "twist"

  • Movimentos bem decorados e íntegros

  • Um ponto mais forte de cor já segue em pleno vigor

  • Espaço para possíveis outras complicações

Nesse caso em particular eu não teria problema nenhum em recomendar outro relógio de alguma das marcas que já compõem essa seleção, inclusive durante nossas contemplações duas apareceram: F.P.Journe e Vacheron Constantin. Junto aos suspeitos usuais, o que foi direcionando minhas ideias de forma relativamente natural foram dois pontos: uma complicação mais robusta e um outro nome renomado.

@montresetal

Esse Journe Octa Lune é um ponto importante, pois não só ele adiciona uma camada extra pela cor exótica, mas torna qualquer outro Journe nessa faixa de preço redundante. Um adendo, esse relógio por si só tem um valor substancialmente acima do que temos em mente como próximo alvo. A combinação do tom salmão com platina é aceita como a mais escassa nesse modelo, mais um fator que deixa essa peça ainda mais elevada. Já com um FPJ de peso em mãos, acho que faria pouco sentido aqui adicionar um Chronomètre Bleu, que foi inclusive uma das peças que o próprio XH cogitou.

O que me fez levá-lo para outro caminho foi o fato do relógio não adicionar nenhum ganho extra a ele, a não ser talvez pela caixa em tantalum, pois o dial por mais elaborado que seja no seu processo de criação com múltiplas camadas de laca azul, acaba ficando menos impactante tendo o Octa ao lado, também em um metal frio. Some esses atributos ao fato do budget precisar ser esticado em mais USD ˜40-50k e a compra faz menos sentido ainda na minha opinião.

@hairspringwatches

Uma outra adição que eu pessoalmente atuei para ser realizada, e que na minha sincera opinião é um dos melhores relógios que o dinheiro compra, em qualquer faixa de preço. Não foi o primeiro ALS dele, mas foi o primeiro com a moon-phase mais bonita da indústria atualmente, e uma peça que qualquer apreciador de relojoaria em qualquer lugar do mundo adoraria ver em mãos. O próprio Ben Clymer da Hodinkee elogia bastante o relógio e o calibre em especial. É um calendário anual elegante e de fácil legibilidade, um caso raríssimo onde tenho certeza que o relógio ficará ainda mais bonito daqui há quatro décadas. É um primor.

@hairspringwatches

Efetivamente, depois de entender as companhias que esperam a próxima peça, o savoir-faire horológico é imediato e até as sensibilidades estéticas de cada uma, também. Já temos dois metais diferentes, duas personalidades distintas por conta dos dials, e um calendário anual ao lado de uma moon-phase. Quando olhei esse último fator especificamente notei quase que uma delineação natural: fases da lua e calendário anual. Calendário perpétuo como próximo entrante?


Refinando as escolhas

Por um processo de eliminação já conseguimos tirar algumas ideias do caminho, e o ponto agora é entender o quão assertivas são as peças que passam a ser contempladas. Com os bullet-points acima, eles já apontam para uma parcela relativamente pequena que seria realmente pertinente aqui, duas marcas e dois modelos especificamente tomaram nossas mentes por alguns dias:

  • Vacheron Constantin, Overseas Perpetual Calendar Ultra-thin Skeleton, ouro rose

  • Patek Philippe, 5270G, dial azul

Fora o fato de serem ambos calendários perpétuos, eles seguem sensibilidades firmemente opostas. Acredito que ambos poderiam existir numa mesma coleção, e inclusive na do próprio XH. Dentre eles, um se destacou não porque a outra opção não fosse tão boa quanto, mas pelo contexto histórico e por ter uma complicação que a marca em particular executa como nenhuma outra.

Um dos acabamentos mais bem executados pela VC em uma caixa com 8.1mm de altura. Acredito que seja um dos melhores relógios que a maison faz atualmente e o acho belíssimo sob todas as óticas. | @hairspringwatches

O Patek que veio à mente desde o primeiro momento se mostrou capaz de passar por várias camadas de contemplação.


Patek Philippe 5270G, blue dial

Na verdade, quando enviei essa foto para o outro lado, imagino que a decisão tenha sido tomada ali. Não obstante, o que o relógio oferece por mérito próprio e especialmente como se integra na coleção atual do XH foi um dos encaixes mais naturais que já vi durante esses processos.

Addictcollector.com “the money shot"

Quando se trata de uma das complicações mais celebradas da relojoaria, nesse território em particular a Patek é soberana. Não só pela execução de um calendário perpétuo cronógrafo ser complexa por natureza, mas pelo fato da companhia ter sido a primeira a produzir um relógio nesse molde em 1941, tornando-se um clássico em especial pela linguagem de design originada há quase um século, e que ainda dita como o relógio existe hoje.

É um design que foi aperfeiçoado minuciosamente ao longo das décadas, e é irreverentemente um dos carros-chefe da PP. Nenhuma outra manufatura entrega esse nível de linhagem numa referência como essa. Dado que significância histórica é um ponto importante no nosso mix, a nota aqui não poderia ter sido mais alta. Do bezel côncavo — um detalhe do qual sou calorosamente fã — ao layout da data em conjunto com os subdials, essa estética própria é um dos pontos altos de design dentro da relojoaria como um todo.

Sem contar o peso histórico, diria que o esforço é mínimo em olhar para esse relógio e imediatamente notar algo com beleza intrínseca. O fato do metal frio ser combinado com um dos tons azuis mais bonitos que a marca já fez é quase magnético. Envolto por uma das caixas mais belas feitas até então, um dos pontos altos da peça são os lugs. Sem grandes ressalvas, estão entre os mais elegantes que foram produzidos até hoje.

@1916company | bonhams.com

Além da beleza nítida, essa referência com o dial azul foi produzida por um período relativamente curto, entre 2014-2018 aproximadamente, onde nos primeiros anos houve uma evolução no layout do dial, na parte inferior. Mais especificamente, aonde o subdial com o moonphase encontra a escala do taquímetro, forma-se uma leve curvatura para acomodar as duas complicações. As primeiras versões foram apelidadas como exemplos que têm um "queixo" por conta dessa peculiaridade, um detalhe que foi amplamente criticado pelos colecionadores próximos da marca e por isso houve um redesign. Até onde eu sei, o mercado ainda não diferencia de forma considerável uma peça com ou sem o "queixo".

é um detalhe que particularmente não me incomoda, imagino que será um ponto de diferenciação forte no futuro quando essa peça invariavelmente começar a ser estudada.

Em conjunto com o dial num tom elegantemente azulado, dois outros pontos notáveis são os ponteiros em formato de folha (meus preferidos, por sinal) e o tipo da fonte usada aqui. É uma fonte no estilo "typewriter", que carrega uma elegância sucinta e um senso quase de aristocracia de forma nata. A ênfase nesses pontos em especial vem também pelo fato deles terem sido adaptados ao longo dos anos, à medida que a marca foi introduzindo novos capítulos da ref. 5270.

Hoje em dia no catálogo da marca essas características existem somente na versão em ouro amarelo, as demais seguem com dial, ponteiros e fontes mais modernas. Imagino que seja como uma forma de interpretar a referência por uma lente mais moderna, onde o relógio possa ser contextualizado de forma mais próxima a um moletom com um slip-on, do que com um blazer e mocassim como seria nas primeiras iterações. São estilos diferentes, e nesse caso especificamente a coloração do dial sobrepõe qualquer outra variante.

Ainda pensando no conjunto da obra como um todo, talvez como a cereja do bolo, o movimento do 5270G por si só faria com que ele fosse ao topo das nossas contemplações. O primeiro calendário perpétuo cronógrafo feito cem por cento pela PP (calibre CH 29-535 PS Q), um feito histórico para a marca e construído com uma das arquiteturas mais refinadas da Suíça. O nível de acabamento é um dos poucos no catálogo atual que eu consideraria verdadeiramente impressionante, pois logo que visto causa aquela impressão de algo sublime.

Addictcollector.com | @hairspringwatches

Em síntese

Diria que são poucos os casos onde uma conclusão é tão íntegra como essa. Pelos inúmeros atributos que o PP carrega consigo, mas em especial no encaixe que ele teria com as outras peças do mix. Uma complicação tecnicamente celebrada com um nível de execução altíssimo, onde até uma sensibilidade nova nos ponteiros foi entregue também. Sem nenhum conflito direto de uso com os outros relógios, em particular pela tonalidade azul, e cem por cento dentro do budget. Diria aqui que caso seja necessário esticar ligeiramente para ~165'000, esse acréscimo vale ser feito com relativa leveza.

O que eu acho particularmente relevante é notarmos aonde estão nossas sensibilidades estéticas e em qual direção nosso gosto tangência. Uma vez com isso claro, olharmos a conjuntura atual da coleção que temos e ter perspicácia de saber o quão bem posicionada será a nova aquisição em relação às demais peças, e que talvez isso implique em um movimento duplo, onde além de adicionar algo, um relógio precise também sair. Acredito que essas decisões são sim melhores tomadas de forma estruturada, mas que essa estrutura seja entendida e construída com base no que é importante para cada um.

Já comentei em um dos artigos do Tony Traina (meu criador favorito, por sinal) que os relógios que temos a maior tendência de mantermos no longo prazo são aqueles que nos dão aquele calafrio inicial mas que conseguem ser contemplados com escrutínio em várias frentes. Em outras palavras, um Patek Philippe 5270G com dial azul.

@hodinkee

Nossos agradecimentos especiais ao @justhaacking por ter dividido suas peças e sua história conosco!


Próximos conteúdos:

Hoje irei recomendar duas coisas, uma mais nerd e outra mais leve:

Leitura: Pela primeira vez eu vi uma marca publicamente corrigir uma casa de leilão. No decorrer dessas últimas semanas, a F.P.Journe por meio da sua página no Instagram publicou uma nota afirmando a data correta da entrega de um dos seus relógios. Até então, nada de anormal.

Isso veio em resposta direta a um anúncio feito pela Phillips Watches, atualmente a casa de leilão mais proeminente do meio. Há alguns meses, foi anunciado pelos mesmos que o relógio com referência nº022/99R teria sido entregue em 1999, e na verdade foi entregue em 2000. Isso é especialmente relevante pois esse tipo de informação pode gerar milhões de dólares de acréscimo no valor de venda do relógio. Não é de hoje que uma casa de leilão escolhe algumas palavras-chave, ou uma forma de escrita que enalteça ou direcione algum fato de forma floreada.

Dito isso, "errar" esse tipo de informação, em particular tendo uma sede na mesma cidade que a manufatura em questão, e com ampla e próxima relação com a própria marca, é difícil entender o porquê disso não ter sido verificado antes. Bastava literalmente uma ligação. Só esse tópico de forma apartada daria um artigo por si só. Nuances das casas de leilões, na verdade imagino que daria um livro.

Dado que o fato relevante foi sobre a F.P.Journe, reli o artigo sobre os três primeiros modelos da marca. Excepcionalmente escrito. Vale cada segundo de leitura. Um brasileiro foi um contribuinte de suma importância para esse guia.

Leia aqui: A Collectors Guide to Early F.P. Journe — via A Collected Man

Vídeo/Podcast: atualmente meu podcast favorito, os quatro rapazes de Londres batem um papo extraordinário com Max Büsser, fundador da MB&F. O vídeo fala por si só. Vale assisti-lo com calma.

Assista aqui: Good Times with Max Büsser — via Subdial + Justin Hast


É uma pergunta que eu recebo com uma certa frequência e a minha reação é sempre a mesma. Não faço ideia.

Por mais simples que a "dúvida" seja, além da responsabilidade de indicar algo para alguém que confia em mim, aquilo que eu tenho afeição e o que a pessoa do outro lado da mesa prioriza muitas vezes são opostos. O que efetivamente deixa essa dúvida potente é o fato do caminho até uma resposta poder ser inteiramente racional ou emocional. Quando essa pergunta vem de alguém mais versado no hobby, geralmente o que ele busca é algo que combine o cérebro com o coração em medidas praticamente iguais. É dificílimo.

O que eu acho curioso é que no ímpeto que comentei acima de querermos algo que combine razão e emoção, algumas tomadas de decisões são mais peculiares que outras. Já vi relógios serem comprados por espontaneidade pura e já vi também planilhas de excel serem desenvolvidas para qualificar o processo. Com gráficos e tudo. Cada um tem seu estilo e quando eu vejo essa situação na qual legitimamente existe uma fórmula estruturada para decidir o caminho, a conclusão que eu tiro disso é que queremos algo que nos mova, e que nos coloque perto daquilo que é mais importante para nós dentro da relojoaria.

Isso é vago e muda com o tempo. Não deixa de ser peculiarmente instigante. Por saber justamente que existe tanta complexidade numa resposta que precisa ser plena, ou o mais próxima disso, quando eu vejo as inúmeras recomendações hoje em dia e escuto "compra um speedy porque toda coleção precisa ter um" seria mais fácil filmar minha expressão facial do que eu tentar descrevê-la aqui.

A resposta mais interessante, imagino eu, será um relógio que te cative com longevidade. Acho que grande parte do esforço se dá na capacidade de filtrar algo que toda vez que seja visto, cause um leve frio na barriga e uma emoção que era mais fácil ser sentida nos anos mais jovens da vida. É muito mais simples se encantar por um relógio recém adquirido — muitas vezes pelo simples fato daquilo ser uma novidade — enquanto é muito mais complexo conseguir isso com algo familiar.

Familiaridade não quer dizer tédio e novidade não quer dizer emoção. Os relógios que eu mais gosto de recomendar são aqueles que eu consigo imaginar a pessoa abrindo a caixa e querendo colocá-lo no punho, sem que o fascínio se dissipe. O que surge nesse caminho muitas vezes é uma vontade de conversar com alguém justamente para clarear as ideias.


Eis a dúvida

Meu último caso acredito que tenha sido um exemplo particularmente interessante desse tipo de situação, conversei com um amigo próximo sobre o que eu recomendaria que fosse sua próxima aquisição. Existem algumas nuances importantes nesse caso, duas em especial:

  • Eu conheço os gostos do XH, sei o que ele valoriza e o que não é prioridade, e relevantemente, a evolução do seu gosto ao longo deste ano.

  • As últimas peças adquiridas por ele são de alto nível, não somente em valor financeiro mas em substância horológica. Acho relevante manter esse direcionamento.

O que isso me possibilitou efetivamente foi filtrar de forma muito mais rápida e direcionada o que faria sentido e o que poderia ser descartado. Não seria muito produtivo que eu recomendasse um MB&F calendário perpétuo e nem alguma variante do Nautilus. Tínhamos um equilíbrio específico para achar ali.

dito isso, que coisa belíssima | @paulocuenca

Com um budget de USD 150'000, a minha ideia era concentrar todas as fichas em uma peça só, ao invés de buscar algumas. Por dois motivos, o primeiro deles sendo o fato de outras peças incríveis e adicionadas recentemente comporem o acervo do XH, e o segundo por uma predileção minha de que uma peça certa vale mais que algumas que não "chegam exatamente lá". Dada a seleção na foto abaixo, acho que o momento atual dele como colecionador já entrega bastante estímulo em diversas frentes.

Especificamente aqui acho que mais volume diluiria a intencionalidade de uso de cada peça, e ia acabar virando um caso de "mais é mais" só por ser. Logo no início, eu me propus a pensar em um relógio que pudesse agregar de forma singular ao mix:

@justhaacking

Sem uma planilha de excel aberta e sem enviar foto do último relógio que eu tenho salvo na minha galeria, eu me ative aos seguintes pontos:

  • Fases da lua são bem-vindas

  • Marcas com pedigree mas que tenham um "twist"

  • Movimentos bem decorados e íntegros

  • Um ponto mais forte de cor já segue em pleno vigor

  • Espaço para possíveis outras complicações

Nesse caso em particular eu não teria problema nenhum em recomendar outro relógio de alguma das marcas que já compõem essa seleção, inclusive durante nossas contemplações duas apareceram: F.P.Journe e Vacheron Constantin. Junto aos suspeitos usuais, o que foi direcionando minhas ideias de forma relativamente natural foram dois pontos: uma complicação mais robusta e um outro nome renomado.

@montresetal

Esse Journe Octa Lune é um ponto importante, pois não só ele adiciona uma camada extra pela cor exótica, mas torna qualquer outro Journe nessa faixa de preço redundante. Um adendo, esse relógio por si só tem um valor substancialmente acima do que temos em mente como próximo alvo. A combinação do tom salmão com platina é aceita como a mais escassa nesse modelo, mais um fator que deixa essa peça ainda mais elevada. Já com um FPJ de peso em mãos, acho que faria pouco sentido aqui adicionar um Chronomètre Bleu, que foi inclusive uma das peças que o próprio XH cogitou.

O que me fez levá-lo para outro caminho foi o fato do relógio não adicionar nenhum ganho extra a ele, a não ser talvez pela caixa em tantalum, pois o dial por mais elaborado que seja no seu processo de criação com múltiplas camadas de laca azul, acaba ficando menos impactante tendo o Octa ao lado, também em um metal frio. Some esses atributos ao fato do budget precisar ser esticado em mais USD ˜40-50k e a compra faz menos sentido ainda na minha opinião.

@hairspringwatches

Uma outra adição que eu pessoalmente atuei para ser realizada, e que na minha sincera opinião é um dos melhores relógios que o dinheiro compra, em qualquer faixa de preço. Não foi o primeiro ALS dele, mas foi o primeiro com a moon-phase mais bonita da indústria atualmente, e uma peça que qualquer apreciador de relojoaria em qualquer lugar do mundo adoraria ver em mãos. O próprio Ben Clymer da Hodinkee elogia bastante o relógio e o calibre em especial. É um calendário anual elegante e de fácil legibilidade, um caso raríssimo onde tenho certeza que o relógio ficará ainda mais bonito daqui há quatro décadas. É um primor.

@hairspringwatches

Efetivamente, depois de entender as companhias que esperam a próxima peça, o savoir-faire horológico é imediato e até as sensibilidades estéticas de cada uma, também. Já temos dois metais diferentes, duas personalidades distintas por conta dos dials, e um calendário anual ao lado de uma moon-phase. Quando olhei esse último fator especificamente notei quase que uma delineação natural: fases da lua e calendário anual. Calendário perpétuo como próximo entrante?


Refinando as escolhas

Por um processo de eliminação já conseguimos tirar algumas ideias do caminho, e o ponto agora é entender o quão assertivas são as peças que passam a ser contempladas. Com os bullet-points acima, eles já apontam para uma parcela relativamente pequena que seria realmente pertinente aqui, duas marcas e dois modelos especificamente tomaram nossas mentes por alguns dias:

  • Vacheron Constantin, Overseas Perpetual Calendar Ultra-thin Skeleton, ouro rose

  • Patek Philippe, 5270G, dial azul

Fora o fato de serem ambos calendários perpétuos, eles seguem sensibilidades firmemente opostas. Acredito que ambos poderiam existir numa mesma coleção, e inclusive na do próprio XH. Dentre eles, um se destacou não porque a outra opção não fosse tão boa quanto, mas pelo contexto histórico e por ter uma complicação que a marca em particular executa como nenhuma outra.

Um dos acabamentos mais bem executados pela VC em uma caixa com 8.1mm de altura. Acredito que seja um dos melhores relógios que a maison faz atualmente e o acho belíssimo sob todas as óticas. | @hairspringwatches

O Patek que veio à mente desde o primeiro momento se mostrou capaz de passar por várias camadas de contemplação.


Patek Philippe 5270G, blue dial

Na verdade, quando enviei essa foto para o outro lado, imagino que a decisão tenha sido tomada ali. Não obstante, o que o relógio oferece por mérito próprio e especialmente como se integra na coleção atual do XH foi um dos encaixes mais naturais que já vi durante esses processos.

Addictcollector.com “the money shot"

Quando se trata de uma das complicações mais celebradas da relojoaria, nesse território em particular a Patek é soberana. Não só pela execução de um calendário perpétuo cronógrafo ser complexa por natureza, mas pelo fato da companhia ter sido a primeira a produzir um relógio nesse molde em 1941, tornando-se um clássico em especial pela linguagem de design originada há quase um século, e que ainda dita como o relógio existe hoje.

É um design que foi aperfeiçoado minuciosamente ao longo das décadas, e é irreverentemente um dos carros-chefe da PP. Nenhuma outra manufatura entrega esse nível de linhagem numa referência como essa. Dado que significância histórica é um ponto importante no nosso mix, a nota aqui não poderia ter sido mais alta. Do bezel côncavo — um detalhe do qual sou calorosamente fã — ao layout da data em conjunto com os subdials, essa estética própria é um dos pontos altos de design dentro da relojoaria como um todo.

Sem contar o peso histórico, diria que o esforço é mínimo em olhar para esse relógio e imediatamente notar algo com beleza intrínseca. O fato do metal frio ser combinado com um dos tons azuis mais bonitos que a marca já fez é quase magnético. Envolto por uma das caixas mais belas feitas até então, um dos pontos altos da peça são os lugs. Sem grandes ressalvas, estão entre os mais elegantes que foram produzidos até hoje.

@1916company | bonhams.com

Além da beleza nítida, essa referência com o dial azul foi produzida por um período relativamente curto, entre 2014-2018 aproximadamente, onde nos primeiros anos houve uma evolução no layout do dial, na parte inferior. Mais especificamente, aonde o subdial com o moonphase encontra a escala do taquímetro, forma-se uma leve curvatura para acomodar as duas complicações. As primeiras versões foram apelidadas como exemplos que têm um "queixo" por conta dessa peculiaridade, um detalhe que foi amplamente criticado pelos colecionadores próximos da marca e por isso houve um redesign. Até onde eu sei, o mercado ainda não diferencia de forma considerável uma peça com ou sem o "queixo".

é um detalhe que particularmente não me incomoda, imagino que será um ponto de diferenciação forte no futuro quando essa peça invariavelmente começar a ser estudada.

Em conjunto com o dial num tom elegantemente azulado, dois outros pontos notáveis são os ponteiros em formato de folha (meus preferidos, por sinal) e o tipo da fonte usada aqui. É uma fonte no estilo "typewriter", que carrega uma elegância sucinta e um senso quase de aristocracia de forma nata. A ênfase nesses pontos em especial vem também pelo fato deles terem sido adaptados ao longo dos anos, à medida que a marca foi introduzindo novos capítulos da ref. 5270.

Hoje em dia no catálogo da marca essas características existem somente na versão em ouro amarelo, as demais seguem com dial, ponteiros e fontes mais modernas. Imagino que seja como uma forma de interpretar a referência por uma lente mais moderna, onde o relógio possa ser contextualizado de forma mais próxima a um moletom com um slip-on, do que com um blazer e mocassim como seria nas primeiras iterações. São estilos diferentes, e nesse caso especificamente a coloração do dial sobrepõe qualquer outra variante.

Ainda pensando no conjunto da obra como um todo, talvez como a cereja do bolo, o movimento do 5270G por si só faria com que ele fosse ao topo das nossas contemplações. O primeiro calendário perpétuo cronógrafo feito cem por cento pela PP (calibre CH 29-535 PS Q), um feito histórico para a marca e construído com uma das arquiteturas mais refinadas da Suíça. O nível de acabamento é um dos poucos no catálogo atual que eu consideraria verdadeiramente impressionante, pois logo que visto causa aquela impressão de algo sublime.

Addictcollector.com | @hairspringwatches

Em síntese

Diria que são poucos os casos onde uma conclusão é tão íntegra como essa. Pelos inúmeros atributos que o PP carrega consigo, mas em especial no encaixe que ele teria com as outras peças do mix. Uma complicação tecnicamente celebrada com um nível de execução altíssimo, onde até uma sensibilidade nova nos ponteiros foi entregue também. Sem nenhum conflito direto de uso com os outros relógios, em particular pela tonalidade azul, e cem por cento dentro do budget. Diria aqui que caso seja necessário esticar ligeiramente para ~165'000, esse acréscimo vale ser feito com relativa leveza.

O que eu acho particularmente relevante é notarmos aonde estão nossas sensibilidades estéticas e em qual direção nosso gosto tangência. Uma vez com isso claro, olharmos a conjuntura atual da coleção que temos e ter perspicácia de saber o quão bem posicionada será a nova aquisição em relação às demais peças, e que talvez isso implique em um movimento duplo, onde além de adicionar algo, um relógio precise também sair. Acredito que essas decisões são sim melhores tomadas de forma estruturada, mas que essa estrutura seja entendida e construída com base no que é importante para cada um.

Já comentei em um dos artigos do Tony Traina (meu criador favorito, por sinal) que os relógios que temos a maior tendência de mantermos no longo prazo são aqueles que nos dão aquele calafrio inicial mas que conseguem ser contemplados com escrutínio em várias frentes. Em outras palavras, um Patek Philippe 5270G com dial azul.

@hodinkee

Nossos agradecimentos especiais ao @justhaacking por ter dividido suas peças e sua história conosco!


Próximos conteúdos:

Hoje irei recomendar duas coisas, uma mais nerd e outra mais leve:

Leitura: Pela primeira vez eu vi uma marca publicamente corrigir uma casa de leilão. No decorrer dessas últimas semanas, a F.P.Journe por meio da sua página no Instagram publicou uma nota afirmando a data correta da entrega de um dos seus relógios. Até então, nada de anormal.

Isso veio em resposta direta a um anúncio feito pela Phillips Watches, atualmente a casa de leilão mais proeminente do meio. Há alguns meses, foi anunciado pelos mesmos que o relógio com referência nº022/99R teria sido entregue em 1999, e na verdade foi entregue em 2000. Isso é especialmente relevante pois esse tipo de informação pode gerar milhões de dólares de acréscimo no valor de venda do relógio. Não é de hoje que uma casa de leilão escolhe algumas palavras-chave, ou uma forma de escrita que enalteça ou direcione algum fato de forma floreada.

Dito isso, "errar" esse tipo de informação, em particular tendo uma sede na mesma cidade que a manufatura em questão, e com ampla e próxima relação com a própria marca, é difícil entender o porquê disso não ter sido verificado antes. Bastava literalmente uma ligação. Só esse tópico de forma apartada daria um artigo por si só. Nuances das casas de leilões, na verdade imagino que daria um livro.

Dado que o fato relevante foi sobre a F.P.Journe, reli o artigo sobre os três primeiros modelos da marca. Excepcionalmente escrito. Vale cada segundo de leitura. Um brasileiro foi um contribuinte de suma importância para esse guia.

Leia aqui: A Collectors Guide to Early F.P. Journe — via A Collected Man

Vídeo/Podcast: atualmente meu podcast favorito, os quatro rapazes de Londres batem um papo extraordinário com Max Büsser, fundador da MB&F. O vídeo fala por si só. Vale assisti-lo com calma.

Assista aqui: Good Times with Max Büsser — via Subdial + Justin Hast


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